Textos sobre psiquiatria, saúde mental, dependência química e comportamento em busca de uma visão bio-psico-social humanista e integrada da área.
CRMMG 37343 RQE 24427
domingo, 20 de fevereiro de 2011
O casamento de Rachel - toxicodependência e cinema
Toda doença tem seu ganho secundário, isto é fato. O meu ganho secundário preferido ao ficar de cama é poder colocar em dia os filmes que assisto. Como semana passada fiquei em casa com dengue, deu para assistir um filme que há muito constava na minha lista: "O casamento de Rachel ou Rachel Getting Married".
O filme em questão, dirigido por Jonathan Demme e com Anne Hathaway e Debra Winger (grata surpresa), tem um aspecto de mockumentary, ou pretende ser um documentário fictício. Rachel é a irmã mais velha de Kym, uma usuária de drogas, e está para se casar. Devido ao fato, Kym pôde sair da clínica de recuperação para passar este fim de semana especial com a família. O filme, além de tentar ser "realidade", tem um ar experimental e sua grande força está na exploração dos sentimentos dos membros da família em relação ao retorno de Kym. Ela os magooou e mentiu a todos e é difícil voltarem a confiar nela. Além disso, Kym sente-se desconfortável no seu rótulo de "a de fora" e "difícil". Kym também sente muita culpa pelos traumas profundos que causou a todos, mas não vou me aprofundar nisto para não estragar a história.
O casamento de Rachel é sem dúvida um dos melhores filmes e representações que já assisti sobre os efeitos da toxicodependência nos membros da família. O filme tem um visual e uma história mais leve que os seus semelhantes e traz uma nota de esperança no final. Desta forma, fica aqui a recomendação para quem não assistiu ainda.
As aventuras do Homem-Metadona e da Garota Buprenorfina
Uma pequena interrupção nos posts sobre história da toxicodependência para um vídeo sobre o assunto:
O vídeo com Methadone Man e Buprenorphine Girl pode ser bobinho mas a situação na Rússia é séria. O índice de usuários injetáveis de drogas é altíssimo e a partilha comum. O vilão "Thought Control" (controle de pensamento), que tenta fazer com que as pessoas não acreditem na eficácia dos tratamentos farmacológicos da dependência de heroína atua também em Portugal e no resto da Europa.
As drogas injetáveis são responsáveis por 1 em 10 casos de transmissão do HIV e se excluírmos a África da equação (alta transmissão heterossexual), o número sobe para 1 em 3 casos.
Se os tratamentos de substituição estivessem disponíveis globalmente, eles poderiam prevenir 130.000 novos casos de infecção pelo HIV por ano, diminuir a trasmissão do vírus da Hepatite C e reduzir o número de mortes por overdose em 90%.
Se o vídeo for muito bobinho para você, recomendo o gibi (cartoon) abaixo:
Uma epidemia de toxicodependência assola o Brasil desde o início dos anos 90 e toda a população sofre as consequências. O pensamento dominante de que o dependente químico é problema da família ou da polícia há muito deixou de encantar. Numa sociedade vitimizada pela avalanche das drogas, todos sofrem, desde o toxicodependente e seus familiares diretos às vítimas diretas da violência do tráfico. No meio deste percurso de demanda e oferta, comunidades são depredadas e perdem seu valor comercial devido à violência, perdemos nossos parques e praças públicas para o constante desmantelamento por parte de indivíduos que apresentam comportamentos antissociais e por medo da violência nos trancamos e perdemos nossa liberdade individual.
Atuar na problemática das drogas requer fino conhecimento da dinâmica do tráfico, que evolui com as mudanças da sociedade, disponibilizando “novas” drogas quando as até então disponibilizadas tornam-se estigmatizadas e de difícil permeabilidade nos novos mercados. Surgem então as designer drugs ou drogas de desenho, que contam não apenas com novos nomes e compostos mas com nova estratégia mercadológica e consumidor final. Estudar como as novas gerações percebem e vivenciam as drogas para prevenir novas epidemias, conhecer os efeitos de cada uma delas e estar alerta para novas ameaças que surgem devido à guerras ou mudanças geopolíticas nos governos de países ligados à produção das drogas também é essencial para se entender os problemas atuais. Mas mais do que isso, atuar a fundo nesta problemática muitas vezes requer medidas políticas que não são populares, como fornecer seringas a usuários de heroína, nem têm resultados facilmente demonstráveis a curto prazo.
O objetivo dos próximos posts não é fornecer informação detalhada sobre os principais sintomas e consequências do uso de drogas. Existem diversas publicações no mercado sobre o assunto que abordam este assunto de forma muito mais aprofundada do que as palavras a seguir. Com estes posts tento fazer um passeio histórico, um esclarecimento sobre o percursso que tomamos como humanidade no uso de drogas, para tentar assim entender os pilares da epidemia de drogas atual, seja o crack no Brasil ou a heroína na Europa. Com o conhecimento histórico pode-se observar como algumas drogas entram e saem da moda, voltando com um rótulo novo, mas sempre causando as mesmas consequências.
Os posts foram retirados de um trabalho que realizei para melhor entender a progressão histórica das drogas e seu entendimento moderno. Pode-se dizer que escrevi um "rascunho de um livro" que agora compartilho com os leitores do blog.
8,2 milhões exageram em medicamentos nos EUA, e número supera usuário e drogas sintéticas
A Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes (Jife) - órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) - fez um alerta hoje para o uso abusivo de medicamentos prescritos em todo o mudo. O problema, segundo a Jife, deve ser abordado com urgência, a fim de impedir sua propagação e evitar mais incidentes fatais. Nos Estados Unidos, o abuso de medicamentos prescritos é o segundo maior problema em meio ao cenário das drogas. Com 8,2 milhões de usuários, fica atrás apenas da maconha e representa mais do que o número somado de usuários de cocaína, heroína, alucinógenos, ecstasy e inalantes. Já na Alemanha, entre 1,4 e 1,9 milhão de pessoas são viciadas em remédios. De acordo com um relatório divulgado pelo órgão, medicamentos que contêm substâncias controladas estão sendo usados como substitutos de drogas ilícitas, uma vez que causam efeitos semelhantes e estão amplamente disponíveis - inclusive pela internet - por meio da venda de conteúdos contrabandeados ou falsificados. "As pessoas tendem a achar que o abuso de medicamentos prescritos é apenas um uso inadequado de medicamentos para tratar problemas de saúde. Mas esses incidentes são frequentemente resultado de um vício que pode ser tão letal como a dependência de outras drogas como a heroína ou a cocaína", alerta o documento.
Entender a questão do tráfico e uso de drogas é complexo. O uso de drogas é multifatorial e pode ser traçado até 5000 antes de Cristo, quando babilônios maceravam a papoula para fazer bolos e obter maior prazer sexual. O uso excessivo de álcool é descrito na Bíblia: Noé era alcoolista e isso o colocou em uma posição vulnerável para ser abusado por um de seus filhos.
A questão do porque no Brasil se usa o crack e em Portugal, por exemplo, a heroína domina o cenário também tem a ver com a lei da oferta e procura. A heroína na Europa é muito mais barata do que no Brasil, que faz fronteira com a Colômbia e inunda o país com cocaína e crack de qualidade. Já na Europa, a heroína vem através dos países mediterrâneos (Portugal, Espanha, Turquia), provida pelos países do norte da África. Com o baixo custo há maior incentivo ao uso. Para entender o mercado da droga, há que se entender também um pouco de logística e marketing: gerações que cresceram a testemunhar a devastação que uma droga específica causou na geração anterior (por exemplo, a heroína na geração européia dos anos 80) são menos propensos a usar esta droga. Daí a inovação constante no mercado da droga, com a criação do crack nos anos 80 e das drogas sintéticas (ecstasy) recentemente, estas últimas vendidas como "inócuas" à geração das raves.
Entender isso é importante para se preocupar com o vídeo abaixo. Nele, investigadores americanos mostram os campos de papoula da Colômbia, que tem diversificado sua produção. Com a heroína tão perto do Brasil, o preço deve cair. Como nunca tivemos uma epidemia de consumo da heroína, a população brasileira é de certa forma "virgem" à este produto e um grande mercado potencial.
Uma amiga do twitter me mostrou o link para esta reportagem da Época, uma revista semanal brasileira. Transcrevo o texto aqui para que os colegas lusitanos também possam ler o que se diz de suas práticas na área da toxicodependência. O texto original pode ser acessado no link abaixo. As fotos são do mesmo artigo.
05/02/2040 - 20:43 - Atualizado em 06/02/2010 - 10:03
Usuário fuma maconha numa rua do Porto. Deixar de prender não incentivou
Andres Vera
Dez anos separam duas realidades de um mesmo país. Até 2000, Portugal era tomado pela pior epidemia de drogas de sua história – e uma das mais graves da Europa. Hoje, os portugueses orgulham-se de sua bem-sucedida política de descriminalização. Na década de 1990, o país chegou a ter 150 mil viciados em heroína (quase 1,5% da população). Em 2001, o governo português arriscou: descriminalizou a posse individual de todas as drogas, da maconha à heroína. De lá para cá, a polícia portuguesa não prende quem porta pequenas quantidades de droga. No lugar da punição, os usuários flagrados são encaminhados para tratamento. Quando essa decisão foi aprovada pelo Parlamento, temia-se uma explosão no consumo. Mas o que se vê agora é uma queda no uso de todas as drogas e em todas as faixas etárias (leia nos quadros) .
Os números positivos da descriminalização só vieram a público no ano passado, com a publicação de um relatório do Cato Institute. Entre 2001 e 2006, as mortes por overdose caíram de 400 para 290. O registro de pessoas infectadas pelo HIV por compartilhar seringas contaminadas passou de 2 mil para 1.400. Mais importante: Portugal não virou destino para jovens europeus dispostos a se drogar sem que a polícia os incomodasse.
A teoria por trás da política liberal de descriminalização se baseou numa premissa humanista: “Você precisa fazer uma escolha entre tratar o usuário como criminoso ou como um paciente que precisa de ajuda”, diz Manuel Cardoso, diretor do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). Para a lei portuguesa atual, quem é flagrado usando ou portando pequenas quantidades de droga não responde criminalmente. O limite é uma dose suficiente para dez dias de consumo. Se apanhado pela polícia, no entanto, esse usuário será encaminhado para uma “comissão de dissuasão”. No ano passado, cerca de 7.500 portugueses passaram pelas comissões. Um psicólogo, um advogado e um assistente social avaliam o perfil do usuário e recomendam tratamento ou multa. A penalidade para os traficantes em nada mudou. Quem negocia qualquer tipo de droga vai para a cadeia como um criminoso comum.
A medida pode parecer radical, mas seus efeitos mostram que ela teve êxito ao enfrentar a explosão da droga, iniciada nos anos 70, no embalo das mudanças de comportamento que sacudiram o país com a Revolução dos Cravos. Quando Portugal decidiu mudar sua lei antidrogas, em 2001, a Europa carregava na memória as imagens deprimentes de “zumbis” vagando pela Platzspitz, em Zurique, na Suíça. Lá, o que era para ser uma praça pública para os usuários se drogarem de maneira “segura”, com vigilância médica e seringas limpas, transformou-se num parque de diversões para drogados e traficantes. A Suíça reconheceu o fracasso da medida e fechou a praça em 1992.
A experiência de descriminalização em Portugal não repetiu o fracasso dos suíços. As primeiras estatísticas a chamar a atenção das autoridades portuguesas foram as do sistema de reabilitação dos usuários de drogas. De 1999 a 2008, o número de viciados que passaram por tratamento saltou de 6 mil para 24 mil. Para atender os novos usuários que procuraram a reabilitação, o uso de metadona, uma substância química usada no tratamento de toxicodependentes de heroína, quase triplicou entre 2001 e 2006. “Quando era tratado como criminoso, o usuário ficava no submundo”, diz Cardoso. “É esse o usuário que agora busca tratamento.”
O crescimento da procura pela reabilitação não mostrou nenhuma relação com o aumento do consumo – um dos maiores temores de quem criticara a lei no passado. As estatísticas do IDT mostram que o número de crianças e adolescentes que já experimentaram algum tipo de droga na vida diminuiu em todas as faixas etárias e em todos os tipos de droga. O uso de heroína, um indicador muito sensível para os portugueses que se lembram da epidemia da droga, continuou estável. Entre 2001 e 2007, a porcentagem de pessoas de todas as idades que admitem ter experimentado a droga pelo menos uma vez passou de 1% para 1,1%, uma diferença considerada insignificante pelos estudiosos.
A maconha, droga que já foi consumida por pelo menos 10% dos portugueses acima dos 15 anos, também parece ter saído de moda. Hoje, Portugal está entre os países com um dos menores índices de consumo da droga na Europa. O número impressiona quando comparado, por exemplo, ao consumo de maconha nos Estados Unidos, onde 39% da população acima de 12 anos já consumiu a droga. Proporcionalmente, há mais americanos cheirando cocaína que portugueses fumando “baseados”. Esse tipo de comparação virou argumento poderoso para os defensores da descriminalização. “Portugal é um exemplo que deveria ser cuidadosamente levado em conta por outros países”, escreveu o advogado americano Glenn Greenwald, diretor do Cato Institute e autor da pesquisa sobre a descriminalização.
Greenwald, considerado um dos advogados mais influentes dos EUA, ressalta outra vantagem: o tráfico de drogas parece ter diminuído. O número de traficantes acusados pela Justiça portuguesa diminuiu depois da lei. Em 2000, houve 2.211 acusações. Em 2008, foram 1.327. Se o rigor da polícia e da Justiça portuguesas se manteve inalterado na última década, isso poderia mostrar que a “guerra contra as drogas” defendida pelos Estados Unidos tem uma natureza falha.
Diante de tantas evidências positivas, onde estaria a fragilidade do modelo português? Os números imediatamente apontam para dois problemas: crescimento do uso de cocaína e do número de mortes relacionadas ao uso de drogas a partir de 2006. O governo português diz que existem apenas problemas pontuais, causados por tendências de consumo ou por mudança de metodologia, e que isso não tira sua credibilidade. É nesse ponto que alguns especialistas discordam. Muitos acreditam que Portugal só atingiu tantos resultados porque acompanhou uma onda de diminuição do consumo de todas as drogas verificada na Europa.
Outros críticos dizem que o tamanho de Portugal, com cerca de 10 milhões de s habitantes, não serve de parâmetro para determinar se a descriminalização funcionaria, por exemplo, nos Estados Unidos. Todos concordam, pelo menos, que se a experiência da descriminalização em Portugal não ajudou, ela também não atrapalhou, a exemplo da desastrosa experiência de Platzspitz. As únicas certezas empíricas dizem que a distribuição de seringas limpas realmente reduz o número de infectados pelo HIV. Mas ninguém conseguiu entender, por exemplo, por que a Polônia, sem nenhuma política antidrogas digna de menção, tem as taxas de consumo de cocaína mais baixas da Europa.
Os liberais continuam acreditando no bom exemplo português. No começo do ano, um estudo da revista The Economist feito em parceria com as Nações Unidas investigou a relação entre narcóticos e níveis de punição em 17 países. A conclusão do estudo: não existe relação entre as duas coisas. Uma comparação entre dois países opostos no quesito “rigor punitivo”, a liberal Holanda e a rigorosa Suécia, mostrou que a legislação não interferia nos problemas que esses países enfrentavam para tratar os dependentes químicos. Nos EUA, onde imperam as mais duras regras contra o tráfico e o consumo, as drogas continuam um flagelo.
O que a descriminalização das drogas em Portugal tem a ensinar ao Brasil? “Escolher o modelo ideal é uma questão de vontade política e, principalmente, de pragmatismo”, diz Manuel Cardoso. A favor da descriminalização da maconha (e não de sua legalização, que suporia a legitimidade da produção e da venda da droga) estão três ex-presidentes latino-americanos: o brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o colombiano César Gaviria e o mexicano Ernesto Zedillo. Há um ano, na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, exibiu-se o principal argumento desse grupo, um que explica o sucesso de Portugal: os bilhões de dólares que governos gastam prendendo e processando usuários de drogas teriam mais utilidade se destinados a programas de reabilitação. Se é verdade que o tamanho e a cultura de Portugal não traduzem o que poderia acontecer no Brasil, a experiência argentina de descriminalização da maconha, em vigor desde agosto, mostrará a chance de uma política liberal vingar na América Latina. Em Portugal, até agora, parece ter vingado.
Parabéns à RAN - 14 anos a trabalhar para a recuperação
Em primeiro lugar gostaria de parabenizar a RAN (Recuperação de Alcoólicos e Narcóticos) e sua equipa pelos 14 anos de sucesso no tratamento da toxicodependência em Portugal. Longe de fazer propaganda, o texto abaixo é para elucidar como trabalha a clínica e talvez estimular abordagens semelhantes no Brasil. Infelizmente no país, a maioria das clínicas de reabilitação são baseadas em trabalho duro (na enxada mesmo) e muita religiosidade (conversão evangélica). Não quero dizer que este tipo de abordagem não funciona, mas que alternativas embasadas teoricamente, mesmo que privadas, como no caso da RAN, são sempre bem vindas.
O texto abaixo é um resumo de um artigo meu publicado na Psychiatry Online. As fotos da clínica foram tiradas pela equipa.
Em 2005, após terminar minha residência médica em Uberlândia – MG, recebi uma proposta de trabalho em Portugal e a oportunidade de experienciar outras formas de abordar a toxicodependência. Além da vivência em outras abordagens (políticas, sociais e culturais), o trabalho que desenvolvi no país por 3 anos foi baseado em heroinômanos, uma dependência química que, por enquanto, é praticamente inexistente no Brasil.
O convite que me foi oferecido veio de uma comunidade terapêutica privada, na cidade de Vila Real, em Trás-os-Montes. A clínica obedece o Modelo Minnesota de tratamento da toxicodependência, ainda pouco conhecido no Brasil. Este modelo varia de instituição a instituição, mas todos partilham os princípios fundamentais do programa 12 Passos dos Alcoólicos Anônimos (AA), criado em 1948 (Bodin, 2006). Na década de 1960, o modelo foi expandido para englobar também usuários de outras drogas (Spicer, 1993). O modelo foi trazido a Portugal em 1987, pela Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA), do Serviço de Utilização Comum das Forças Armadas Portuguesas e daí se expandiu, com diversos centros de tratamento espalhados pelo país. Com base em seu conteúdo, os 12 passos podem ser agrupados em passos decisivos, passos de ação e passos de manutenção (Makela et al., 1996). Os passos decisivos (1-3) envolvem o reconhecimento da impotência perante as drogas e a necessidade de ajuda, e a decisão de se colocar nas mãos de um Deus pessoal. Os passos de ação (4-9) envolvem escrever e compartilhar um inventório moral, buscar a resolução de defeitos de caráter através de um Deus pessoal e consertar o mal feito a terceiros. Os passos de manutenção (10-12) são de continuado auto-exame e correção, de aprofundamento na relação com o Deus pessoal através de preces e meditação, e de levar a mensagem do programa a outros usuários de drogas.
A estrutura e conteúdo do tratamento
O programa da comunidade terapêutica constituí-se em 84 dias de tratamento inicial, em setting residencial, seguido de 6 a 24 meses de acompanhamento pós-alta. Formada há 15 anos, a comunidade terapêutica é a base de toda estrutura, com capacidade para 33 clientes. A equipe inclui clínico geral, psiquiatra, enfermeiro e conselheiros, sendo os últimos toxicodependentes recuperados através do AA ou NA. Baseado nos princípios do AA/NA, o grupo terapêutico é considerado a principal arma terapêutica, fornecendo um local para identificação com outros em situação semelhante. Sessões em grupo podem tomar a forma de grupos para solução de problemas, direcionados a problemas pessoais específicos, ou sessões de confrontação, direcionadas a “destruir a negação” do paciente. Ensaios sobre a “História de Vida” e outras consequências negativas do uso de drogas são relatados na terapia de grupo. Outros tipos de grupos incluem grupos diários de leitura, nos quais os pacientes fazem reflecções ou meditações sobre a literatura do NA ou AA; palestras diárias sobre tópicos relativos aos programas e tradições do NA, desde a natureza da dependência química, conceptualizada pelo modelo de doença, à consequências médicas, psicológicas e sociais do uso de substâncias. Programas familiares são incluídos, às quartas-feiras, sob a premissa de que a dependência química é uma doença que afeta negativamente todos os membros do núcleo familiar. Finalmente, atividades físicas e passeios aos fins-de-semana são oferecidos à todos os internos. O esquema de tratamento diário geralmente contém quase todos esses elementos e, em consequência, é altamente estruturado. O acompanhamento pós-alta pode incluir atividades individuais regulares, aconselhamento em grupos ou famílias e a presença em reuniões do AA ou NA é mandatória. Alguns pacientes que apresentam problemas de inserção social, história de diversas recaídas ou comorbidades psiquiátricas são inseridos em programas especiais no pós-alta (half-way house). O programa half-way ocorre em regime residencial, na comunidade, sendo geralmente uma casa ou apartamento alugados, onde clientes dividem o espaço para se manter abstinentes e em sociedade. Este regime visa a responsabilização e autonomia do indivíduo, com apoio psicossocial estruturado.
O papel do psiquiatra
Neste modelo, a base do tratamento é a abstinência completa e o foco é a mudança do estilo de vida. Como a manutenção do tratamento depende de adequada socialização, o psiquiatra colabora no sentido de ajudar definir o caminho da recuperação. A crença metodológica de que a condição de suscetibilidade à toxicodepedência existe anteriormente ao primeiro uso de drogas e a visão de que o utilizador de drogas é cronicamente dependente, apesar de suas tentativas de abandonar o vício, permeiam o trabalho neste tipo de instituição. O papel do psiquiatra consite, no primeiro momento, em definir o tratamento de desabituação da droga principal: no caso da heroína, 14 dias de substitutos opióides em dose decrescente, acompanhados de benzodiazepinas e bloqueadores α-adrenérgicos. Quanto ao grupo na sua totalidade, em fornecer educação sobre as drogas e suas consequências e, no que tange ao cliente, investigar e atuar em comorbidades que possam comprometer o sucesso terapêutico.
Vila Real vista da clínica
Entrada da clínica
Sala de convívio dos utentes
Sala preparada para terapia e sessões
Sala de espera do gabinete médico
Gabinete médico (deu muitas saudades postar esta foto em especial!!)
Para mais informações sobre a clínica, clique no logo no início deste post ou aqui (link que leva à homepage da clínica).
O astro de Iron Man - que foi preso e participou de reabilitações às drogas diversas vezes entre 1996 e 2001 - insiste que ele havia prometido a si mesmo nunca experimentar narcóticos classificação A (opioides, crack e cocaína) e só notou que tinha um problema quando tinha que usar drogas para se livrar de seus sintomas "de gripe".
"Da primeira vez foi ópio" - o ator disse à revista britânica Esquire. "Da segunda vez parecia ópio. Assemelhava-se a ópio, cheirava o mesmo, talvez um pouco mais sujo (...) e quando acordei 3 semanas depois, e pensava que estava gripado, usei mais uma vez, olhei para cima e disse "Beleza. Agora somos drogados. Que grande m****!"
"Eu sempre fui o cara que dizia "Não à heroína e não ao crack". Mas não importa se você passa 10 anos sem usar. Porque no dia 3551 é a sua vez."
O ator de Sherlock Holmes também admitiu ter lutado para largar o vício e achou-se vez e outra de volta às clínicas de recuperação.
A dieta do vício Para manterem-se magras, mulheres trocam a comida pelo álcool. A doença já ganhou nome: drunkorexia
Veículo: A Notícia
Seção: Joinville
Data: 06/12/2009
Estado: SC
Embora esteja no peso ideal ou ligeiramente abaixo dele, Camila* jamais descuida do corpo. Se preocupa com a silhueta a ponto de seguir um treino diário na academia e excluir totalmente os doces e as frituras do cardápio. Já Larissa* obedece a um menu ainda mais espartano: além de gorduras e doces, não come massas, e ainda assim, acha que não se preocupa o suficiente com o corpo. Psicóloga e publicitária moram em Florianópolis, têm pouco mais de 30 anos e, além de dividirem a preocupação excessiva com o corpo, têm outro ponto em comum: os regimes restritivos que seguem não excluem excessos alcoólicos frequentes. No prato, saladinha. No copo, vinho, cerveja, champanhe ou vodka.
Substituir refeições por álcool, trocar as calorias de grupos alimentares por aquelas contidas nas bebidas ou ainda utilizá-las para aplacar a ansiedade e o vazio no estômago geram um comportamento de risco que recentemente foi batizado de alcoolrexia, anorexia alcoólica ou drunkorexia (drunk significa bêbado em inglês). Os nomes não são oficiais, assim como o comportamento não é considerado um transtorno alimentar, mas especialistas alertam para o aumento do número de meninas que apresentam esse traço.
“A valorização cultural da magreza e a aceitação social do uso de álcool pelos jovens têm provocado o aumento de casos, mas não há dados definitivos sobre quantas pessoas apresentam este tipo de comportamento”, explica Eduardo Wagner Aratangy, supervisor do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Mulheres com essas características já procuraram especialistas de Santa Catarina. “A preocupação com as calorias é tanta que o mínimo que ela se permite usa no álcool. Elas não querem abrir mão disso, então, não comem quase nada. Em outros casos, a bebida pode tirar a fome”, explica a nutricionista Isabela Sell. Seja por mecanismos calóricos ou cerebrais, o álcool, de fato, pode dar a sensação de saciedade.
“O álcool libera dopamina, neurotransmissor que diminui a ansiedade. Quando estamos com fome ficamos mais ansiosos. O álcool relaxa. Ele também tem um aporte calórico, mas não tem proteína nem aminoácido”, explica o psiquiatra Marcos Zaleski. A combinação entre abuso de álcool e falta de nutrientes pode causar desnutrição e gastrite, além de lesões hepáticas que podem resultar em hepatite e câncer. Do ponto de vista psiquiátrico, pode provocar ansiedade e depressão.
* Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.
Quem tem um familiar dependente químico muitas vezes sente-se só, abandonado pelos amigos e sem saber a quem recorrer. Perder a fé (seja ela na religião ou no sistema de apoio) devido às inúmeras recaídas é comum. Para ajudar, muitas pessoas tem recorrido a blogs\blogues e o post abaixo veio de um desses veículos. O blog Oxycontin and Opiate Addiction: A mother's story (para acessá-lo, clique na figura abaixo) descreve a experiência de uma mãe que está a lidar com a toxicodependência de seu filho. Em um depoimento honesto, ela tenta fazer sentido do que está a ocorrer em sua vida e tem encontrado apoio de muitos internautas na sua jornada.
O texto abaixo foi retirado de um post seu de 1 de Dezembro deste ano e traduzido por mim:
Otimismo cuidadoso
Acabo de conversar com B. Tenho de congratulá-lo pois continua a trabalhar, apesar do estresse de seu chefe estar em cima o tempo todo. B ligou para dizer que seu chefe o avisou que suas tarefas tem de ser "perfeitas" já que o dono da compania chega amanhã. Ele disse que se B não o fizer adequadamente será despedido. Parece que o chefe de B está em uma missão para despedir meu filho. Eu quero dizer que há sempre três lados para uma história. O de B, de seu chefe e a Verdade. Hoje B não se sente bem. Ele está em abstinência e amanhã de manhã ele começa a metadona. Ele diz que o suboxone não está adiantando. (Ele ainda tem o suboxone, o que me surpreendeu. B não vendeu os comprimidos). De qualquer forma, meu filho foi trabalhar e chegou cedo hoje. Isso é muito importante - como qualquer dependente de heroína pode lhe dizer. Quando você se sente nauseado, para que meu filho trabalhe tão dedicadamente - e depois me dizer que vai trabalhar horas extras para ter certeza de que vai desempenhar adequadamente - isso é ótimo. Não é muito longe para que eu vá buscá-lo. Eu preciso comprar algo para o jantar, então vou comprar uma refeição para ele também.
Uma outra mãe me avisou gentilmente para que tome cuidado com meu otimismo. Eu estou. Eu estou, literalmente, a viver um dia de cada vez com meu filho. Estou a espera do momento "então prove!", no qual meu filho realmente faça o que ele fiz que vai fazer. Já agora, estou a medir seu progresso no dia-a-dia. (...)
Quão longe eu vim em 17 meses! Aqui eu achava que a clínica de recuperação iria curá-lo e que ele ficaria bom. Pouco sabia eu que o ditado "a recaída é parte da recuperação" seria a profecia de minha situação. Eu sofri por onze anos com meus próprios problemas e desafios, e finalmente estou livre de tudo aquilo. Agora resta-me esperar que meu filho também fique livre.
Estou de saída para meu grupo de estudos bíblicos hoje à noite. É um grupo de agradáveis senhoras que se importam comigo e vice-versa. Uma delas é adicta\viciada em meth (metanfetamina) que está sóbria há 3 anos e meio. Ela perdeu a guarda e os direitos de ver seu filho de 11 anos. É de partir o coração, mas admiro como ela está a mudar sua vida. (...)
Além deste blog, há um círculo de blogs de familiares de toxicodependentes que dão apoio uns aos outros na blogosfera. Ainda não encontrei nada em português (seja Pt ou Br) mas fica aqui a ideia de que utilizar um blog desta forma pode ser catártico e resultar em uma troca de experiências promissora.
Se tem uma frase que aprendi em Portugal e não me canso de repetir é "Contra factos não há argumentos". Os brasileiros não tem tal expressão, utilizada geralmente para encerrar uma discussão e mostrar o lado mais forte do debate. Essa frase veio-me à cabeça e tem circulado em meus pensamentos cada vez que leio notícias sobre políticas da toxicodependência.
Acho que deve ser ano eleitoral no país, pois tenho lidos nos jornais desde o meio deste ano uma certa movimentação de bastidores e reativação de alianças políticas. E como não poderia deixar de ser, a toxicodependência entra em debate, sendo um dos carros fortes das políticas públicas de saúde portuguesas.
Aqui devo esclarecer: eu não voto em Portugal e nem mesmo moro mais no país. Entretanto, como profissional que lida com a dependência química e, tendo testemunhado como estrangeira os bons caminhos da assistência em saúde mental e toxicodependência deste pequeno país europeu, quando comparados com outros países que visitei e vivi, não pude me conter em escrever este relato.
Sei que sou ingênua no campo político, mas ainda acho incrível como pessoas que têm muito pouco peso no assunto tem à disposição tanto tempo na comunicação social (mídia) ou muito peso como aliados políticos. Já há muito que no campo da Medicina a ciência e o poder estatístico, que comprovam a veracidade de uma determinada intervenção, é que determinam se há ou não melhora de determinado quadro. Esta atitude científica do último século possibilitou a revolução na saúde, que testemunhamos e usufruímos nas últimas décadas. Mesmo tendo escrito um artigo recente sobre a constante prevalência da psiquiatria biológica sobre as demais formas de investigação, em hora nenhuma neguei o seu peso e validade no exercício deste campo da medicina.
E é aqui que entra o problema da toxicodependência, ainda um campo de batalha "sem dono". A psiquiatria estuda-a e a categoriza em seus tratados e sistemas classificatórios. As associações de doentes, seja o AA ou NA não aceitam o modelo médico e procuram se entregar a "um poder maior" (método que tem sido justificado em diversas pesquisas). Criminalistas, sociólogos, experts de todas as áreas têm algo a dizer sobre o assunto. Mas em geral, dentro de seus próprios discursos, há uma certa concordância, uma norma que todos procuram cumprir.
Por isso causa-me tanta confusão a presença de uma figura que distoa de todos os experts acima no cenário da toxicodependência portuguesa. Este médico é um cirurgião (que parece também ter exercido a medicina desportiva), que eventualmente acabou por trabalhar com adictos\dependentes químicos e escreveu alguns livros sobre o assunto. Em uma rápida busca no PubMed, site que disponibiliza os textos científicos das áreas da biologia, não foi possível encontrar um trabalho do "pesquisador" sobre o assunto. E o trabalho científico publicado após peer review (revisão crítica por pares) é um dos pilares sagrados da "Medicina baseada em evidências". Porque fora dele, eu posso escrever o que bem quiser, que a esquizofrenia é causada por ondas eletromagnéticas solares ou que a depressão não existe mas é somente uma disfunção dietética.... mas isso não é ciência...é fé. E desde os trabalhos de Galeno, Newton e outros temos de provar o que dizemos (q.e.d - quod est demonstratum). Contra factos não há argumentos.
Um homem que diz, nos dias de hoje, apesar de todas as evidências em contrário, que a toxicodependência não é doença, mas uma fraqueza moral, que tenta nos vender a idéia de que um País sem drogas é completamente possível (mesmo que a história da humanidade se entrelace com o uso e abuso de álcool e opióides desde a pré-história) e que escreve um livro que diz que apenas o esporte pode curar a dependência química não deveria fazer parte de qualquer discurso político sério sobre o assunto.
Este texto não é uma crítica pessoal ao médico em questão. Embora discorde de todas as suas visões sobre o campo da toxicodependência, eu o conheci pessoalmente e sei que pessoa agradável é, um charmoso bon vivant (no melhor sentido da palavra), interessado em bons vinhos, refeicões e mulheres. A crítica aqui, dá-se aos políticos e à comunicação social, que lhe atribuem tanto tempo nas telas e jornais.
Tantos bons pesquisadores nas áreas e os políticos até hoje (seja no Brasil ou em Portugal) não aprenderam a cercar-se deles para definirem estratégias certas e de base para se tratar dos problemas, sejam eles sociais, criminais ou de saúde...
É.... contra factos não há mesmo argumentos.
Foto: A tríade da medicina baseada em evidência, disponível em http://med.fsu.edu/informatics/EBMtriad.jpg
Em homenagem ao dia mundial da luta contra a AIDS, vou publicar um post retirado da minha tese de mestrado. Defendi a dissertação "Crenças, comportamentos, atitudes e status serológico ao VIH\SIDA em dependentes químicos" na Universidade do Porto. Os resultados evidenciaram que, apesar de conhecer e compreender os riscos inerentes ao comportamento sexual e ao consumo injetável, mesmo assim sua prática continua nestas populações.
Aqui um post específico sobre a vulnerabilidade dos dependentes químicos ao HIV, de minha autoria.
"A vulnerabilidade individual da população toxicodependente ao VIH é face importante de qualquer análise sobre a alta prevalência do vírus nestes indivíduos, consumidores endovenosos ou não. Esta vulnerabilidade depende do comportamento individual e compartilhado que, por sua vez, depende de atitudes, práticas e conhecimentos individuais e do grupo. Ignorância quanto aos riscos do consumo endovenoso, por exemplo, especialmente no que tange à transmissão do vírus VIH ou pouca preocupação quanto a estes riscos criam uma vulnerabilidade psicológica que pode levar à participação em práticas de consumo perigosas, que aumentam o risco de transmissão do vírus. O grau de dependência, e portanto, de severidade da síndrome de abstinência afecta a habilidade do indivíduo em praticar seu consumo de forma segura (WHO, 2005). O grau de dependência também é causa da marginalização destes indivíduos, levando-os a cometer actos de risco para obter a substância como prostituição e relações sexuais desprotegidas. Assim sendo, conhecer para actuar em determinantes individuais de vulnerabilidade ao VIH entre os usuários de drogas, crenças e atitudes em relação ao VIH/SIDA torna-se um importante aspecto na prevenção da epidemia.
Os toxicodependentes, apresentam aspectos de organização social que podem aumentar a vulnerabilidade à infecção pelo VIH. Os consumidores de substâncias estão em geral socialmente marginalizados, o que leva a formação de subculturas da toxicodependência, alienadas da comunidade principal. Estes indivíduos têm pouco acesso ou não confiam nas estruturas formais de saúde, não recebendo conhecimentos transmitidos por estas instituições, o que aumenta sua vulnerabilidade ao vírus. O estigma social e legal experimentado pela vasta maioria de consumidores de substâncias ilícitas faz com que grande parte de suas vidas ocorra escondida da comunidade, criando dificuldades na criação de programas específicos e dificultando o acesso para o envolvimento nas actividades protectoras da mesma (WHO, 2005).
Teorias sociológicas postulam que a sociedade é fragmentada em pequenas subculturas e que são os membros pertencentes ao meio do indivíduo, o grupo de pares no qual a pessoa se identifica como parte, que têm a mais significativa influência no comportamento individual (King, 1999). Normas sociais, critérios religiosos e as relações de poder entre os sexos e entre os pares infundem significado no comportamento, moderando a permissão a mudanças, positivas ou negativas. Uma forma ideal de comunicação, adequada ao trabalho de prevenção, seria a que personaliza e combina a mensagem da prevenção para uma audiência específica, toxicodependentes, com a finalidade de provocar a mudança comportamental (Pandey, 2005).
Nos últimos anos, entretanto, pesquisas sobre a organização da rede social de utilizadores de drogas injectáveis evidenciaram resultados provocativos. Estes estudos contradizem directamente a visão do usuário de drogas como isolado socialmente de todas as influências a não ser as de outros usuários. Estereótipos negativos dos consumidores de substâncias nutrem a noção de que, motivados única e exclusivamente pela necessidade pungente de obter uma dose, estes indivíduos inevitavelmente rompem todos os laços sociais. Estudos recentes revelaram que muitos consumidores endovenosos do sexo masculino mantêm longos relacionamentos amorosos com mulheres que não injectam drogas, enlaçando este homem, mesmo que frouxamente, a uma rede social maior, que não é composta exclusivamente por usuários de drogas (Wermuth, Ham, & Robbins, 1992; Auerbach, Wypijewska & Brodie, 1994)."
Referências
Auerbach, J. D., Wypijewska, C. & Brodie, H. K. H. (Eds). (1994). AIDS and Behavior –An Integrated Approach. Washington, D. C., E. U. A.: National Academy Press.
Becker, M., & Joseph, J. (1988). AIDS and behavioral change to reduce risk: a review. American Journal of Public Health, 78 (4), 394-410 DOI: 10.2105/AJPH.78.4.394
King R. (1999). Sexual Behaviour Change for HIV: Where have Theories Taken Us? Genebra, Suíça: UNAIDS.
Pandey, I. (2005). Effective Communication in HIV/AIDS Prevention in India. Dissertação de mestrado em Business Administration não publicada. International Development Department, School of Public Policy, MBA Public Service (International Stream). Birmingham, Reino Unido.
Wermuth, L., Ham, J., & Robbins, R. (1992). Women don’t wear condoms: AIDS risk among sexual partners of IV drugs users. In J. Huber & B. Schneider (Eds.), The Social Context of AIDS (pp. 72-94). Newbury Park, C. A., E. U. A.: Sage.
WHO (2005). Policy and Programming Guide for HIV/AIDS Prevention and Care Among Injecting Drug Users. Genebra, Suíça: WHO.
Pelo que me parece há no momento marketing sobre uma novela que esta ou estara no ar no Brasil que se chama Viver a Vida, na qual o tema é superação. Não sei nada sobre o assunto pois estou a morar fora do país desde 2005. O que sei é que tenho recebido recentemente inúmeros links com histórias de pessoas reais que têm lutado e vencido doenças e tragédias pessoais. Independentemente do porquê elas estão a circular na internet no momento, acredito que estas histórias têm seu lugar como textos de motivação e por isso resolvi lhes dar espaço neste blog. Hoje recebi estas histórias que estão em um site do portal Globo.
sáb, 24/10/09por TV Globo categoria Drogas tags Rosalina Silva Rosalina tinha uma relação muito difícil com a sua família. Sofreu abusos por parte de seu pai, que também não a deixava estudar, pois achava que mulher só servia para ser dona de casa e esposa. A mãe era omissa e isso só dificultava sua vida. Quando seus pais se separaram, Rosalina começou a estudar, mas logo depois eles reataram o casamento e ela foi tirada da escola. Aos 13 anos de idade, começou a namorar um rapaz de 21 anos. Com ele começou a fumar, beber e, com 17 anos, ficou grávida. Casaram e tiveram 3 filhas. Depois de um tempo separaram e Rosalina começou a usar drogas pesadas, casou de novo e através de uma amiga, conheceu a heroína. Gastava todo o seu dinheiro com drogas, vendia tudo que possuía e vivia alcoolizada. Viu muitos amigos morrerem de overdose, se envolveu com traficantes e sua vida começou a ser destruída pelo vício. Aos 40 anos de idade, sua netinha disse que, toda vez que ia visitá-la, ela estava bêbada e isso a deixava muito triste. Foi nesse momento que Rosalina reconheceu que precisava de tratamento. Foi um processo muito difícil, mas com a sua força de vontade e determinação, Rosalina conseguiu se livrar das drogas. Hoje, ela escreve poesias e desenha profissionalmente; já trabalhou com cinema, teatro e fez muitos cursos profissionalizantes, inclusive voltados para tratamento de dependentes químicos.
Uma visão artística da dependência química e da recuperação
Quando morei em Portugal, a novela da SIC Vingaça estava no ar. Era até divertida, mas perdi muitos capítulos e nem mesmo sei como terminou (se alguém assistiu e quiser me iluminar, fique a vontade para escrever um comentário).
Lembro-me que a trilha sonora era muito boa e comprei o CD. Nele estava uma música do Blue October (era tema do Rodrigo Lacerda!) que nunca tinha ouvido, que trata da toxicodependência de uma forma muito profunda.
Geralmente quem não está diretamente envolvido na problemática e no tratamento de toxicodependentes rapidamente se esquece, em meio à criminalidade e aos comportamentos antissociais, que eles também sofrem. Todos neste contexto sofrem: a família, a sociedade e o usuário. A compulsão pela substância acaba por consumí-lo numa espiral que, embora o paciente veja onde vai, não consegue pará-la. E é por isso que gosto muito da música a seguir, que mostra a dor dele (como dependente) e a que causa à mãe.
A letra, vídeo e tradução para o português vão abaixo.
Hate Me - Blue October
I have to block out thoughts of you so I don't lose my head
They crawl in like a cockroach leaving babies in my bed
Dropping little reels of tape to remind me that I'm alone
Playing movies in my head that make a porno feel like home
There's a burning in my pride, a nervous bleeding in my brain
An ounce of peace is all I want for you. Will you never call again?
And will you never say that you love me just to put it in my face?
And will you never try to reach me? It is I that wanted space
Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me so you can finally see what's good for you
I'm sober now for 3 whole months it's one accomplishment that you helped me with
The one thing that always tore us apart is the one thing I won't touch again
In a sick way I want to thank you for holding my head up late at night
While I was busy waging wars on myself, you were trying to stop the fight
You never doubted my warped opinions on things like suicidal hate
You made me compliment myself when it was way too hard to take
So I'll drive so fucking far away that I never cross your mind
And do whatever it takes in your heart to leave me behind
Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things I didn't do for you
Hate me in ways
Yeah ways hard to swallow
Hate me so you can finally see what's good for you
And with a sad heart I say bye to you and wave
Kicking shadows on the street for every mistake that I had made
And like a baby boy I never was a man
Until I saw your blue eyes crying and I held your face in my hand
And then I fell down yelling "make it go away!"
Just make a smile come back and shine just like it used to be
And then she whispered "How can you do this to me?"
Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things I didn't do for you
Hate me in ways
Yeah ways hard to swallow
Hate me so you can finally see what's good for you
Tradução:
Odeie-me (Blue October)
Eu tenho que bloquear pensamentos sobre você para não peder a cabeça
Eles rastejam em mim como uma barata a deixar ovos em minha cama
Deixo cair pequenas rodas de fita de vídeo para me lembrar que estou sozinho
A passar filmes na minha cabeça que fazem com que um pornô sinta-se em casa
Há um queimor em meu orgulho, uma hemorragia nervosa no meu cérebro
Um pouco de paz é tudo que eu quero para você. Você nunca mais vai ligar?
E você nunca mais vai dizer que me ama, só para me jogar na cara?
E você nunca mais tentará se aproximar de mim? Era eu que queria espaço
Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me para que eu finalmente veja o que é bom para você
Estou sóbrio agora desde há 3 meses e foi algo que você me ajudou a conquistar
A única coisa que nos separava é a coisa que nunca mais vou tocar
De um jeito doente eu quero agradecer-te por ter segurado minha cabeça levantada tão tarde da noite
Enquanto estava ocupado fazendo guerras contra mim mesmo, você estava a tentar parar o conflito
Você nunca duvidou das minhas opiniões torpes sobre coisas como o suicídio por ódio
Você fez com que eu me elogiasse quando tudo era demais para aguentar
Então eu vou dirigir para muito longe daqui que eu nunca mais estarei na sua mente
E faça o que for preciso no seu coração para que ele me deixe para trás
Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me por todas as coisas que não fiz por você
Odeie-me de jeitos
Jeitos difíceis de engolir
Odeie-me para que você finalmente veja o que é bom para você
E com um coração triste eu tenho que te dizer adeus e acenar
Chutando sombras na rua por cada erro que cometi
E como um bebê eu nunca fui um homem
Até que vi seus olhos azuis a chorar e segurei seu rosto em minha mão
E caí ao chão a gritar “faça isso desaparecer!”
Apenas faça com que um sorriso volte e brilhe como constumava ser
E então ela suspirou “Como podes fazer isso comigo?"
Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me por todas as coisas que não fiz por você
Odeie-me de jeitos
Jeitos difíceis de engolir
Odeie-me para que você finalmente veja o que é bom para você
Pacientes depressivos recebem mais opioides para dor crônica
Pacientes com dor crônica e história de depressão têm 3 vezes mais probabilidade de receber receitas de medicamentos opioides como oxicodona quando comparados a pacientes com dor que não sofrem do distúrbio mental.
A pesquisa, publicada no número November-December do periódico General Hospital Psychiatry analisou prontuários\fichas médicas de dezenas de milhares de pacientes entre 1997 e 2005 de uma seguradora americana. A prescrição de opioide a longo prazo foi definida como prescrições de 90 ou mais dias.
Segundo Mark Sullivan, co-autor da pesquisa e professor de psiquiatria na Universidade de Washington, os achados causam preocupação pois são generalizados e porque pacientes deprimidos são excluídos de praticamente todos os ensaios de drogas opióides por serem um grupo de risco para a toxicodependência.
A conexão entre dor e depressão é complicada. A dor crônica pode causar os sintomas depressivos e pacientes depressivos apresentam mais queixas de dor irresponsiva, o que leva a serem prescritos opioides. Além disso, o estado depressivo pode fazer com que a dor doa mais.
O estudo completo pode ser encontrado a seguir:
Braden, J., Sullivan, M., Ray, G., Saunders, K., Merrill, J., Silverberg, M., Rutter, C., Weisner, C., Banta-Green, C., & Campbell, C. (2009). Trends in long-term opioid therapy for noncancer pain among persons with a history of depression General Hospital Psychiatry, 31 (6), 564-570 DOI: 10.1016/j.genhosppsych.2009.07.003