sábado, 6 de fevereiro de 2010

Portugal e a droga

Uma amiga do twitter me mostrou o link para esta reportagem da Época, uma revista semanal brasileira. Transcrevo o texto aqui para que os colegas lusitanos também possam ler o que se diz de suas práticas na área da toxicodependência. O texto original pode ser acessado no link abaixo. As fotos são do mesmo artigo.


05/02/2040 - 20:43 - Atualizado em 06/02/2010 - 10:03

A lição dos portugueses

Tratar o usuário de drogas como paciente, e não como criminoso, reduziu o consumo em Portugal. Isso pode dar certo também no Brasil?

Usuário fuma maconha numa rua do Porto. Deixar de prender não incentivou

Andres Vera

Dez anos separam duas realidades de um mesmo país. Até 2000, Portugal era tomado pela pior epidemia de drogas de sua história – e uma das mais graves da Europa. Hoje, os portugueses orgulham-se de sua bem-sucedida política de descriminalização. Na década de 1990, o país chegou a ter 150 mil viciados em heroína (quase 1,5% da população). Em 2001, o governo português arriscou: descriminalizou a posse individual de todas as drogas, da maconha à heroína. De lá para cá, a polícia portuguesa não prende quem porta pequenas quantidades de droga. No lugar da punição, os usuários flagrados são encaminhados para tratamento. Quando essa decisão foi aprovada pelo Parlamento, temia-se uma explosão no consumo. Mas o que se vê agora é uma queda no uso de todas as drogas e em todas as faixas etárias (leia nos quadros) .

Os números positivos da descriminalização só vieram a público no ano passado, com a publicação de um relatório do Cato Institute. Entre 2001 e 2006, as mortes por overdose caíram de 400 para 290. O registro de pessoas infectadas pelo HIV por compartilhar seringas contaminadas passou de 2 mil para 1.400. Mais importante: Portugal não virou destino para jovens europeus dispostos a se drogar sem que a polícia os incomodasse.

A teoria por trás da política liberal de descriminalização se baseou numa premissa humanista: “Você precisa fazer uma escolha entre tratar o usuário como criminoso ou como um paciente que precisa de ajuda”, diz Manuel Cardoso, diretor do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). Para a lei portuguesa atual, quem é flagrado usando ou portando pequenas quantidades de droga não responde criminalmente. O limite é uma dose suficiente para dez dias de consumo. Se apanhado pela polícia, no entanto, esse usuário será encaminhado para uma “comissão de dissuasão”. No ano passado, cerca de 7.500 portugueses passaram pelas comissões. Um psicólogo, um advogado e um assistente social avaliam o perfil do usuário e recomendam tratamento ou multa. A penalidade para os traficantes em nada mudou. Quem negocia qualquer tipo de droga vai para a cadeia como um criminoso comum.

A medida pode parecer radical, mas seus efeitos mostram que ela teve êxito ao enfrentar a explosão da droga, iniciada nos anos 70, no embalo das mudanças de comportamento que sacudiram o país com a Revolução dos Cravos. Quando Portugal decidiu mudar sua lei antidrogas, em 2001, a Europa carregava na memória as imagens deprimentes de “zumbis” vagando pela Platzspitz, em Zurique, na Suíça. Lá, o que era para ser uma praça pública para os usuários se drogarem de maneira “segura”, com vigilância médica e seringas limpas, transformou-se num parque de diversões para drogados e traficantes. A Suíça reconheceu o fracasso da medida e fechou a praça em 1992.

A experiência de descriminalização em Portugal não repetiu o fracasso dos suíços. As primeiras estatísticas a chamar a atenção das autoridades portuguesas foram as do sistema de reabilitação dos usuários de drogas. De 1999 a 2008, o número de viciados que passaram por tratamento saltou de 6 mil para 24 mil. Para atender os novos usuários que procuraram a reabilitação, o uso de metadona, uma substância química usada no tratamento de toxicodependentes de heroína, quase triplicou entre 2001 e 2006. “Quando era tratado como criminoso, o usuário ficava no submundo”, diz Cardoso. “É esse o usuário que agora busca tratamento.”

O crescimento da procura pela reabilitação não mostrou nenhuma relação com o aumento do consumo – um dos maiores temores de quem criticara a lei no passado. As estatísticas do IDT mostram que o número de crianças e adolescentes que já experimentaram algum tipo de droga na vida diminuiu em todas as faixas etárias e em todos os tipos de droga. O uso de heroína, um indicador muito sensível para os portugueses que se lembram da epidemia da droga, continuou estável. Entre 2001 e 2007, a porcentagem de pessoas de todas as idades que admitem ter experimentado a droga pelo menos uma vez passou de 1% para 1,1%, uma diferença considerada insignificante pelos estudiosos.

A maconha, droga que já foi consumida por pelo menos 10% dos portugueses acima dos 15 anos, também parece ter saído de moda. Hoje, Portugal está entre os países com um dos menores índices de consumo da droga na Europa. O número impressiona quando comparado, por exemplo, ao consumo de maconha nos Estados Unidos, onde 39% da população acima de 12 anos já consumiu a droga. Proporcionalmente, há mais americanos cheirando cocaína que portugueses fumando “baseados”. Esse tipo de comparação virou argumento poderoso para os defensores da descriminalização. “Portugal é um exemplo que deveria ser cuidadosamente levado em conta por outros países”, escreveu o advogado americano Glenn Greenwald, diretor do Cato Institute e autor da pesquisa sobre a descriminalização.

Greenwald, considerado um dos advogados mais influentes dos EUA, ressalta outra vantagem: o tráfico de drogas parece ter diminuído. O número de traficantes acusados pela Justiça portuguesa diminuiu depois da lei. Em 2000, houve 2.211 acusações. Em 2008, foram 1.327. Se o rigor da polícia e da Justiça portuguesas se manteve inalterado na última década, isso poderia mostrar que a “guerra contra as drogas” defendida pelos Estados Unidos tem uma natureza falha.

Diante de tantas evidências positivas, onde estaria a fragilidade do modelo português? Os números imediatamente apontam para dois problemas: crescimento do uso de cocaína e do número de mortes relacionadas ao uso de drogas a partir de 2006. O governo português diz que existem apenas problemas pontuais, causados por tendências de consumo ou por mudança de metodologia, e que isso não tira sua credibilidade. É nesse ponto que alguns especialistas discordam. Muitos acreditam que Portugal só atingiu tantos resultados porque acompanhou uma onda de diminuição do consumo de todas as drogas verificada na Europa.

Outros críticos dizem que o tamanho de Portugal, com cerca de 10 milhões de s habitantes, não serve de parâmetro para determinar se a descriminalização funcionaria, por exemplo, nos Estados Unidos. Todos concordam, pelo menos, que se a experiência da descriminalização em Portugal não ajudou, ela também não atrapalhou, a exemplo da desastrosa experiência de Platzspitz. As únicas certezas empíricas dizem que a distribuição de seringas limpas realmente reduz o número de infectados pelo HIV. Mas ninguém conseguiu entender, por exemplo, por que a Polônia, sem nenhuma política antidrogas digna de menção, tem as taxas de consumo de cocaína mais baixas da Europa.

Os liberais continuam acreditando no bom exemplo português. No começo do ano, um estudo da revista The Economist feito em parceria com as Nações Unidas investigou a relação entre narcóticos e níveis de punição em 17 países. A conclusão do estudo: não existe relação entre as duas coisas. Uma comparação entre dois países opostos no quesito “rigor punitivo”, a liberal Holanda e a rigorosa Suécia, mostrou que a legislação não interferia nos problemas que esses países enfrentavam para tratar os dependentes químicos. Nos EUA, onde imperam as mais duras regras contra o tráfico e o consumo, as drogas continuam um flagelo.

O que a descriminalização das drogas em Portugal tem a ensinar ao Brasil? “Escolher o modelo ideal é uma questão de vontade política e, principalmente, de pragmatismo”, diz Manuel Cardoso. A favor da descriminalização da maconha (e não de sua legalização, que suporia a legitimidade da produção e da venda da droga) estão três ex-presidentes latino-americanos: o brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o colombiano César Gaviria e o mexicano Ernesto Zedillo. Há um ano, na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, exibiu-se o principal argumento desse grupo, um que explica o sucesso de Portugal: os bilhões de dólares que governos gastam prendendo e processando usuários de drogas teriam mais utilidade se destinados a programas de reabilitação. Se é verdade que o tamanho e a cultura de Portugal não traduzem o que poderia acontecer no Brasil, a experiência argentina de descriminalização da maconha, em vigor desde agosto, mostrará a chance de uma política liberal vingar na América Latina. Em Portugal, até agora, parece ter vingado.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A médica como paciente II


Continuando o post anterior, no qual delimitei os princípios dos sistemas de saúde públicos da Inglaterra e do Brasil, continuarei agora meu relato pessoal de como experimentei os dois, como médica e como paciente.

Desde que fiquei grávida, contactei uma equipe de midwives (parteiras) que fica na clínica do meu médico de família. Cada local tem seu próprio médico de família (uma pequena clínica com profissionais médicos, enfermeiros, etc) que direciona o tratamento do utente. A primeira consulta foi na minha casa, na qual a midwife (enfermeira parteira) veio conhecer-me e fazer uma avaliação básica da minha saúde. A consulta demorou uma hora, transcorrendo mais como uma conversa entre amigos e ocorreu na mesa da minha sala de jantar, onde nos sentamos os três: a enfermeira, meu marido e eu. Foi preenchida uma ficha de avaliação clínica e a profissional aferiu minha tensão arterial e pulso. Ao final da consulta foi me dado um calendário com a programação das consultas e ultrassons que deveria ter e quando estavam previstos para ocorrer. Como o sistema é público, evita-se o desperdício e não se faz ultrassom em todas as consultas (como no sistema privado no Brasil). O primeiro ultrassom ocorre às 12 semanas (ou ecografia, como se diz em Portugal), já que o índice de abortos espontâneos é muito menor a partir desta data e, se tudo corre bem, o próximo ocorre só com 20 semanas. Se outros procedimentos são necessários, tanto a midwife quanto o médico de família (GP) são porta de entrada e provedores de outros serviços mais especializados.

Este foi um apanhado geral para chegar ao ponto mais pertinente: Embora viva em Cambridge e meu hospital seja um hospital escola (e o único da cidade) NUNCA fui vista por nenhum aluno. Aqui começam as diferenças entre o que experimentei como aluna e o que vejo agora como paciente. Quando fui realizar meu ultrassom anátomo-patográfico (20 semanas), observei em um mural que o hospital solicitava voluntários para uma aula de ultrassonografia. Não aguentei a curiosidade e me candidatei por escrito, recebendo pelo correio, na semana seguinte, instruções sobre a aula. Uma brochura explicava que esta era uma aula para ensinar a residentes de ginecologia e\ou imaginologia como fazer medições básicas de fetos entre 18 a 25 semanas. Um médico especialista estaria presente o tempo todo para dar instruções e a sessão demoraria uma hora. Um livreto explicava o que é o ultrassom e como o exame é realizado. Um papel com instruções explicava para onde deveria me direcionar, quem me atenderia, que seria fornecido um lanche rápido para os voluntários, e que as despesas de viagem e estacionamento seriam pagas pela disciplina.

No dia em questão, chegamos ao hospital (meu marido e eu) e fomos simpaticamente recebidos por uma enfermeira que nos direcionou a um grande salão. Havia uma pequena sala de espera com diversas grávidas e uma mesinha com uma cesta de frutas frescas. O salão havia sido dividido em pequenas salas de exame por biombos (eu contei pelo menos 10) e durante todo o dia grávidas passariam por eles de hora em hora. Fui chamada e assumi a posição para o ultrassom. Os dois alunos presentes se apresentaram, assim como o professor. Quando todos estavam prontos, iniciou-se o exame e a cada 15 minutos era questionada se estava a me sentir bem e se poderíamos continuar. Ao final de meia hora, o segundo aluno iniciou os mesmos procedimentos do primeiro e ao final do exame (final da minha hora) o professor imprimiu gratuitamente para nós as melhores fotos do nosso bebê (geralmente cobra-se 2 libras por foto no NHS).

Não quero dizer que o NHS não apresenta problemas. Como toda política pública, existem arestas a serem aparadas e erros que são cometidos. Mas ideias boas devem ser aproveitadas, especialmente quando se compara a realidade que conheci no Brasil:

Nunca tive um bebê no SUS em Uberlândia, mas obviamente fui aluna de Ginecologia e Obstetrícia no Hospital de lá e não só, passei por todos os departamentos. O que se vê é obviamente bem diferente...

Em Uberlândia, para começar, o sistema está afogado: O Hospital escola é referência para uma região de pelo menos 3 milhões de pessoas e é o único que atende o SUS. As cidades pequenas ao redor podem dispor de suas verbas a seu bem entender (o SUS não é centralizado como o NHS, mas local, lembram?) e ao invés de investir em médicos de família e equipes de triagem, compram uma ambulância para transportar mais rápido para Uberlândia. Assim, serviços que poderiam facilmente serem prestados localmente incham e as filas de espera estendem-se quilometricamente. São necessários meses para uma consulta de avaliação para uma cirurgia de vesícula, por exemplo, que poderia ser facilmente realizada por um médico de família.

Mas, pior que tudo é o nível do cuidado prestado. Não estou a dizer que os médicos do Hospital de Clínicas de Uberlândia são ruins. Muito pelo contrário! São profissionais extremamente competentes em sua grande maioria e diversas vezes fui atendida por eles em seus consultórios privados. O que ocorre em Uberlândia é um garroteamento do serviço. A demanda insana encontra um cuidado prestado principalmente por alunos. Se um dia os alunos de medicina da UFU e os residentes (que afinal de contas também são alunos, com inscrição no CRM mas ainda sem especialização) resolvessem entrar em greve, colocariam o hospita contra a parede. O número de médicos é insuficiente e os alunos estão na primeira linha de atendimento.

Lembro-me de minha passagem pela pediatria, por exemplo. Haviam 5 alunos (pelo menos) de plantão junto com 2 ou 3 residentes e 2 chefes de plantão (os pediatras especialistas de fato). Isso para atender a demanda insana do pronto socorro. Lembro-me de em uma tarde atender pleo menos 35 pacientes! É claro que apenas 2 médicos especialistas jamais dariam conta de tamanho serviço. O que ocorre é que estudantes chamam o paciente e fazem a primeira avaliação. Depois discutem com o residente ou o especialista (aquele que encontram primeiro) que faz uma rapida consulta de 5 minutos para confirmar os achados do estudante.
Percebam, não quero culpar os colegas médicos. O sistema é absurdo! Mais contratações seriam necessárias, mas o hospital (como os demais no país) vive estrangulado por falta de verbas.

O paciente, coitado, nunca tem a opção de não ser visto por um aluno. Já seu primeiro contato com o sistema é feito por um aluno muitas vezes SEM supervisão a todo momento (só a revisão de seu relato). Os pacientes não estão ali para serem vistos por profissionais não formados, da mesma forma que os alunos e residentes não deveriam carregar o hospital nas costas. Todo o sistema encontra-se pervertido e obviamente falhas grotescas de atendimento esperam por ocorrer a todo momento.

Ao escrever este post, lembrei-me de uma situação que ocorreu nos meus tempos de aluna que transcrevo de uma das páginas de notícia do Diretório Acadêmico da UFU. Os nomes dos médicos foram removidos, para garantir sua privacidade. A notícia pode ser lida na íntegra aqui.

Sete pessoas são acusadas pelas mortes de uma paciente e de seu bebê no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, e podem ir a júri popular. Os acusados são quatro médicos, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem.


Segundo denúncia feita pelo Ministério Público Federal, a paciente EPF chegou ao Hospital das Clínicas no início da madrugada do dia 29 de novembro de 2004 já em trabalho de parto e foi atendida inicialmente na Unidade de Atendimento Integrado. Em seguida, a paciente foi transferida de urgência para o HC. O feto estava em posição pélvica.



Percurso

Da transferência até o parto a paciente deparou-se com problemas de comunicação entre profissionais da saúde que a atenderam. De acordo com a inicial, o primeiro médico que atendeu Edinalva telefonou para a médica de plantão do HC relatando o encaminhamento da paciente. À época, o médico também comunicou a transferência de outra paciente — AEC — que teve a bolsa amniótica rompida.

A médica plantonista HBM não atendeu E e delegou a função ao sextanista do curso de Medicina, GBA, e à auxiliar de enfermagem NS. O estudante não determinou a realização de exames complementares e teria respondido à paciente e ao seu acompanhante que o parto seria normal e que “o médico aqui sou eu”.

A médica residente HB, que se encontrava descansando, recebeu a ocorrência e, sem interromper seu descanso, receitou a aplicação do medicamento Buscopan Composto Endovenoso para as dores da paciente.

Em seguida, GB atendeu a paciente AE, mas, ao constatar que o bebê estava nascendo, deitou-a em uma maca do Pronto-Socorro da Enfermaria e, segundo a inicial, inexplicavelmente empurrou o feto para dentro da paciente, causando um aborto não-consentido, crime previsto no artigo 125 do Código Penal. O estudante também foi dormir, deixando E aos cuidados das enfermeiras plantonistas.

Naquela madrugada, também estavam de plantão no HC os médicos JPRJ e APLJ, mas eles não foram vistos no Pronto Socorro da Ginecologia durante todo o tempo dos fatos, embora fossem os responsáveis pelo setor.


Segundo apurou o MP (Ministério Público), por volta das 3h, as duas auxiliares de enfermagem, LMP e NS, a médica H e o estudante G encontravam-se, todos, dormindo quando as pacientes estavam na enfermaria.

Agravantes

Ainda de acordo com informações do MP, a auxiliar L estava embriagada. Durante o procedimento investigatório, ela afirmou que era seu costume beber antes de comparecer ao trabalho, tendo trabalhado alcoolizada por diversas vezes, fato que era do inteiro conhecimento do enfermeiro MNC coordenador do setor de enfermagem.

Na troca do plantão, às 7h, a enfermeira VM percebeu a gravidade do caso e o comunicou à médica residente LR que havia acabado de substituir H. A bolsa havia se rompido e a criança teve problemas como apnéia e cianose generalizada. Não resistiu às tentativas de reanimá-la não e morreu uma hora após o parto.

A mãe permaneceu na enfermaria. Com quadro infeccioso crescente e generalizado, no dia 1º de dezembro foi encaminhada para a UTI, vindo a falecer no dia 14 seguinte.

Acusação

Segundo relato do MP, o interno G, "percebendo a gravidade dos acontecimentos, procurou o prontuário do setor, o qual não continha qualquer registro a partir da meia noite, e em combinação com a inculpada H, inseriram declaração falsa no sentido de que a paciente teria sido examinada à 1h e às 3h da manhã, com o claro propósito de se furtarem de eventual responsabilidade civil e criminal". Por essa razão, além do crime de homicídio doloso, eles são acusados também do delito previsto no artigo 299 do Código Penal, a falsidade ideológica.

Os médicos JPRJ e APLJ e o enfermeiro MNC são acusados de homicídio culposo, prevaricação e abandono de função porque, apesar de escalados para plantão no dia dos fatos, não foram encontrados em qualquer dependência do hospital. As auxiliares de enfermagem LMP e NS irão responder por homicídio culposo.

Ao oferecer a denúncia, o procurador da República Cléber Eustáquio Neves requereu o encaminhamento de cópia ao Conselho Federal de Medicina, para que este órgão realize sindicância no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia. O objetivo é apurar o descumprimento de normas e procedimentos que regulamentam a atividade médica, o exercício regular de plantão e o atendimento adequado a ser dispensado a pacientes em situação de urgência e emergência.


Fonte: Site Última Instância, 09/04/2007.



Nota oficial da Direção do Hospital de Clínicas da UFU

Com relação à denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal envolvendo médicos e enfermeiros do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC/UFU), a Direção do hospital informa que:

O Hospital de Clínicas ainda não foi notificado judicialmente sobre o caso e, assim que for, tomará as providências cabíveis. No entanto, a Direção tomou conhecimento da denúncia por meio da Procuradoria Geral da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e está apurando os fatos.

Foto: http://blogs.freshminds.co.uk/research/wp-content/uploads/2009/01/nhs276.jpg

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A médica como paciente


Para os que não acompanham o blog, este post diz respeito a uma epifania que tive neste momento pessoal. Estou grávida de nosso primeiro filho e vivo na Inglaterra. Uberlândia, onde cresci e me formei profissionalmente, ficou para trás ha muito tempo. Como não poderia deixar de ser, fui paciente também em na minha cidade, de colegas que foram meus professores ou meus conhecidos. Além disso, o Brasil vive um misto de sistemas de saúde, com a classe média a pagar por convênios médicos (em um modelo americano) e os mais destituídos sendo tratado pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a exemplo das democracias européias. Todas as vezes que me vi no papel de paciente, nunca senti a impotência completa que deve ser experimentada pelos não-médicos: a vida nas mãos dos outros, não enteder os termos, entre outros. Como dispunha de plano de saúde, pode-se escolher (comprar de certa forma) um ou outro tratamento ou profissional e meu conhecimento na área sempre serviu como proteção, seja contra tratamentos desnecessários, seja como defesa egóiga ("eu ainda tinha algum poder").

Agora, do outro lado do lago (como os ingleses jocosamente chamam o Oceano Atlântico), vejo-me novamente paciente em um novo contexto. Na Inglaterra é proibido aos amigos e familiares tratarem seus conhecidos, que de qualquer forma ficam limitados a serem consultados por seus GPs (médicos de família) locais. Cada região tem seu GP e é aquele seu provedor de saúde. Além disso, embora existam alguns planos de saúde privados, 95% do país dispõe e usufrui de um plano de saúde nacionalizado, o NHS, orgulho destes ilhéus. Para assustar ainda mais um incauto brasileiro, o incentivo aqui é completamente voltado ao parto normal hospitalar ou domiciliar (a escolha da mulher) e as cesarianas apenas são desempenhadas quando há verdadeira necessidade (ao contrário do Brasil, onde mais de 85% dos partos privados - segundo estatísticas da OMS - são cesarianas).

Quando comecei o curso de medicina, tive aulas de MPC (Medicina Preventiva e Comunitária), que no segundo ano do curso nos dava as bases do SUS. Acho que para entender melhor o resto do artigo, devo explicar o que é e como foi desenvolvido o sistema de saúde brasileiro, tanto para os colegas portugueses quanto para os brasileiros, que também ignoram os fatos desta política pública. Vou começar por uma brevíssima história do NHS inglês, pois estes dois sistemas estão completamente entrelaçados na história brasileira.

O National Health Service (NHS) foi desenvolvido principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido estava falido devido ao esforço de guerra. Assim, Winston Churchil e os conservadores perderam as eleições para o Labour Party e um conjunto de medidas que visavam o bem estar social "do berço à cova" ("cradle to grave") foram implementadas. O governo optou por um sistema nacional e não local para impedir que desigualdades entre regiões afetassem a qualidade do serviço. Também foi proposto que a porta de entrada no sistema seria o GP (General practicioner ou médico de família) que então direcionasse o tratamento às partes necessárias. Os princípios fundamentais do NHS são:

That it meet the needs of everyone (que sirva a todos)

That it be free at the point of delivery (que seja gratuito)

That it be based on clinical need, not ability to pay (que seja baseado na necessidade clínica e não na capacidade financeira (de um indivíduo)).

O SUS
Com a implementção e sucesso do NHS, modelos semelhantes proliferaram por toda Europa e em outros continentes. Em 1974, durante o regime militar no Brasil, o INAMPS foi criado para prestar atendimento médico aos que contribuíam com a previdência social (os que tinham carteira assinada). Com a abertura do regime militar, sob o general Figueiredo, ocorreu o  I Simpósio sobre Política Nacional de Saúde em 1979 e a partir de então o INAMPS foi continuamente alterado para universalizar o atendimento. A Constituição de 1988 definiu a saúde como "direito de todos e dever do Estado". Em 1993 o INAMPS foi definitivamente extinto e o SUS que já vinha sendo implementado gradualmente, assumiu as funções de saúde no país.

Como no NHS, o SUS também dispõe de princípios fundamentais que são descritos a seguir:

Universalidade  "A saúde é um direito de todos"

Integralidade A atenção à saúde inclui tanto os meios curativos quanto os preventivos; tanto os individuais quanto os coletivos. 

Eqüidade Todos devem ter igualdade de oportunidade em usar o sistema de saúde.

Participação da comunidade

Descentralização político-administrativa O SUS existe em três níveis, também chamados de esferas: nacional, estadual e municipal, cada uma com comando único e atribuições próprias. Os municípios têm assumido papel cada vez mais importante na prestação e no gerenciamento dos serviços de saúde; as transferências passaram a ser "fundo-a-fundo", ou seja, baseadas em sua população e no tipo de serviço oferecido, e não no número de atendimentos.

Hierarquização e regionalização Os serviços de saúde são divididos em níveis de complexidade; o nível primário deve ser oferecido diretamente à população, enquanto os outros devem ser utilizados apenas quando necessário.

Na realidade o SUS atende à população pobre. Indivíduos em melhores cargos buscam e dispõe de planos de assistência privados, numa semelhança ao modelo norte-americano.

No papel o SUS é muito bem definido e claro. O modelo inglês funciona lindamente. Porque o mesmo não ocorre no Brasil?

Como aluna, médica e paciente, eu experimentei os dois modelos de forma muito próxima nos últimos anos e, para que este post não fique imenso e monótono, relatarei minhas vivências no próximo para delimitar os contrastes e semelhanças e (quem sabe?) inspirar alguém a buscar soluções melhores para nosso Brasil.

Foto: http://falamedico.files.wordpress.com/2008/09/sus1.jpg

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