domingo, 20 de fevereiro de 2011

O casamento de Rachel - toxicodependência e cinema

Toda doença tem seu ganho secundário, isto é fato. O meu ganho secundário preferido ao ficar de cama é poder colocar em dia os filmes que assisto. Como semana passada fiquei em casa com dengue, deu para assistir um filme que há muito constava na minha lista: "O casamento de Rachel ou Rachel Getting Married".

O filme em questão, dirigido por Jonathan Demme e com Anne Hathaway e Debra Winger (grata surpresa), tem um aspecto de mockumentary, ou pretende ser um documentário fictício. Rachel é a irmã mais velha de Kym, uma usuária de drogas, e está para se casar. Devido ao fato, Kym pôde sair da clínica de recuperação para passar este fim de semana especial com a família. O filme, além de tentar ser "realidade", tem um ar experimental e sua grande força está na exploração dos sentimentos dos membros da família em relação ao retorno de Kym. Ela os magooou e mentiu a todos e é difícil voltarem a confiar nela. Além disso, Kym sente-se desconfortável no seu rótulo de "a de fora" e "difícil". Kym também sente muita culpa pelos traumas profundos que causou a todos, mas não vou me aprofundar nisto para não estragar a história.

O casamento de Rachel é sem dúvida um dos melhores filmes e representações que já assisti sobre os efeitos da toxicodependência nos membros da família. O filme tem um visual e uma história mais leve que os seus semelhantes e traz uma nota de esperança no final. Desta forma, fica aqui a recomendação para quem não assistiu ainda.

Foto: http://www.impawards.com/2008/rachel_getting_married.html

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sábado, 17 de julho de 2010

A Cocaína: de tônico cerebral a destruidora de sociedades - Parte 2

Este post continua a história do uso e dependência de cocaína

A Era dos Medicamentos Patenteados


Numa época de conhecimentos incompletos, na qual a farmacologia ainda engatinhava e figuras de autoridade exaltavam os mais diversos psicofármacos, desconhecendo ou desacreditando os efeitos adversos, um lucrativo comércio de tónicos e soluções que continham as mais diversas drogas despontou no final do século 19. Fabricantes de medicamentos patenteados, tónicos e refrescos produziram uma pletora de produtos que continham cocaína, desde cremes e pós nasais a supositórios. Estes medicamentos alegavam curar uma lista de doenças, incluindo alcoolismo, asma, gripes, eczemas, neuralgias, dependência de morfina e doenças venéreas.

Em 1863 Angelo Mariani, um químico da Córsega, patenteou o Vin Mariani, um vinho de coca. A propaganda do produto incluía testemunhos de Thomas Edison, Robert Louis Stevenson, Jules Verne e o Papa Leão XIII. A propaganda médica afirmava que apenas aqueles de pouca força de vontade tornavam-se usuários regulares da droga. A propaganda de uma substância conhecida como Metcalf’s Wine of Coca afirmava: “Oradores, cantores e atores acham que o vinho de coca é um ótimo tônico para as cordas vocais. Atletas, corredores e jogadores de Baseball viram por experiência prática que o uso regular de coca, tanto antes quanto após qualquer prova de esforço, irá aumentar a energia de todos os movimentos e prevenir fatiga. Pessoas idosas viram que é um afrodisíaco superior a qualquer outra droga.” Entretanto, o produto que se tornou mais famoso mundialmente foi a Coca-Cola. Assim com outros produtos da época, a Coca-Cola originalmente continha cocaína e era vendida como um “tônico cerebral e intelectual” e eventualmente passou a ser vendida apenas como refresco. Por volta de 1903, o fabricante abandonou o uso de xarope de coca e, até os dias de hoje, o refrigerante utiliza apenas folhas de coca nas quais a cocaína foi retirada através do processo de acetilação (Bayer, 2000).

Os problemas começaram a tornar-se públicos – overdoses, psicoses por cocaína, graves dependências químicas – e a opinão pública começou a mudar. Fleischl, que esteve entre os primeiros a manifestar sintomas do abuso de cocaína, infelizmente não foi o último. Enquanto que mortes por overdose resultante de auto-administração eram raras, overdoses por doses administradas pelos médicos tornaram-se frequentes. O relato do caso de Annie Meyers foi influencial na mudança perante a droga: “Eu deliberadamente peguei um par de alicates e soltei um dente que tinha uma obturação de ouro. Então, extraí o dente e o esmaguei, levando o ouro à loja de penhor mais próxima (o sangue corria pela minha face e encharcava minhas roupas) onde o vendi por 80 centavos.”

No início do século 20, alimentada pelos abusos na propaganda dos medicamentos patenteados, pelos diversos relatos de efeitos adversos com a cocaína e por uma campanha de estigmatização social da droga, a opinião pública começa a mudar. De 1900 a 1920, uma série de reportagens na mídia americana associava a cocaína a crimes hediondos cometidos por negros. A cocaína (e cannabis) passou a ser estigmatizada nos EUA por sua associação a trabalhadores pobres de minorias étnicas. Eles cheiravam cocaína porque não podiam comprar seringas, o que os distinguia no uso da droga dos médicos, advogados e classes média e alta, que injetavam a droga. A cocaína passou a ser acusada de ser um “potente incentivo para que negros humildes em todo o país cometam crimes anormais”.

Todos estes fatos, no início do século passado, lançam bases para uma reforma legislativa nos EUA, que culminou com a criminalização da substância. O Harrison Narcotics Act de 1914 (melhor descrito nos posts relativos à heroína) restringiu significativamente a disponibilidade da coca e cocaína, proibindo o uso da droga em medicamentos patenteados. A combinação de propaganda adversa da substância e de legislação específica removeram a áurea de respeitabilidade da droga. Com a proibição, a droga tornou-se cara, sendo disponível apenas para uma minoria afluente. No período que segue a criminalização, até a Segunda Guerra Mundial, o número de usuários nos EUA é difícil de ser estabelecido. No início da década de 30, com a disponibilidade de anfetaminas e o alto custo da cocaína, sua popularidade tornou-se ainda mais reduzida. Até o final da década de 50, o comércio ilegal de cocaína praticamente não compensava.

No Brasil a cocaína também era legalmente comercializada na época, como parte integrante de medicamentos ou na sua forma pura. Sob influência das questões norte-americanas a sociedade brasileira passou a ver o uso de cocaína com preocupação. Seguindo as tendências mundiais, em 1921 o Decreto-Lei Federal no 4.292 de 06 de Julho de 1921 restringiu o uso de cocaína no Brasil.

Apenas no final da década de 60 e início dos anos 70 o interesse em cocaína voltou a renascer. Sociedades afluentes, que inicialmente buscavam auto-realização pessoal em pouco tempo passaram a buscas de prazer hedonísticas, alimentaram as vendas internacionais de cocaína. A droga inundou nichos do mercado norte-americano, criados por anfetaminas, heroína e maconha, produtos da cultura da droga dos anos 60. O grande número de norte-americanos que consumia maconha e alucinógenos resultou em diminuição do temor das restrições legais. A cocaína reaparece como droga da elite (estrelas do cinema e do rock), que publicitaram largamente sua nova droga “gourmet”. Esta apologia social da droga levou ao ressurgimento do consumo de cocaína nos EUA. O movimento yuppie, uma ideologia ligada ao consumismo e à rápida ascenção social, utilizou a cocaína para diminuir a fatiga e aumentar a capacidade intelectual. Colombianos de Medelín surgiram como intermediários entre esta demanda e fazendeiros peruanos e bolivianos, refinando a droga e a vendendo principalmente através de imigrantes colombianos em Miami e Nova Iorque. No final da década de 1980 e início dos anos 90, seguindo a tendência americana, o aumento do consumo de cocaína é detectado na população brasileira, quadruplicando de 1987 a 1997.

Com o aumento da repressão no final da década de 80, durante o governo de Ronald Regan e sua “Guerra às drogas”, novos mercados são desbravados com o crack. No início de 1990 a produção de cocaína ilícita era estimada em 1000 toneladas métricas, pelo menos cem vezes maior do que o pico da produção legal no Peru, no início do século passado.

Fotos:
http://www.a1b2c3.com/drugs/coc03a.jpg
http://www.thegooddrugsguide.com/files/images/c_cocacola_poster.gif

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

A Cocaína: de tônico cerebral a destruidora de sociedades

Nomes de rua: Branca, Branquinha, Coca, Gulosa, Neve, Snow

A cocaína é extraída da folha de uma pequena árvore nativa da América do Sul conhecida como coca (Erythroxylum coca). Folhas de coca foram encontradas em antigas câmaras funerárias no Peru, que datam de 2500 A.C. Aparentemente os Incas iniciaram o uso de coca por volta do 10o século. A coca era uma droga sagrada, sendo utilizada primariamente pelos sacerdotes e nobreza em cerimônias especiais. Com o tempo, a prática extendeu-se à população geral, e era utilizada para combater a fatiga provocada pelo ar rarefeito das regiões andinas. A coca era mascada por 45 minutos, associada a uma substância alcalina, e produzia efeitos semelhantes aos da cafeína: nesta forma de utilização (oral), a coca apresentava poucos efeitos colaterais e o efeito terapêutico era reduzido (estimulação). Como espécies selvagens da planta produzem folhas menores, que eram consideradas inferiores em sabor, o cultivo da coca ocorreu desde cedo. A planta era cuidadosamente cultivada e possuía significado religioso central nas sociedades andinas.

Diversos mitos Incas explicavam as origens da coca. Em um deles, a coca era uma linda mulher, executada por adultério, esquartejada e enterrada. De uma parte de seus restos a planta cresceu e floresceu para ser consumida apenas por homens, em sua memória. Em outro, a coca foi criada pelo deus Inti. Inti instruiu a mãe lua, Mama Quilla, a plantar coca nos vales úmidos e ordenou que apenas os descendentes dos deuses poderiam consumí-la. A droga teria sido disponibilizada para aliviar a fome e sede dos Incas, descendentes dos deuses, para que eles lidassem com as demandas terrenas.
Mama Quilla

Quando os espanhóis conquistaram os Incas, o uso da folha de coca já estava generalizado na população. Inicialmente os espanhóis, especialmente os missionários, aboliram o uso da coca por motivos religiosos: o uso de qualquer substância para ter visões era considerado bruxaria ou idolatria. Entretanto, cedo os conquistadores encontraram vantagens no uso da droga, embora eles mesmos não a utilizassem: sob Pizarro os escravos nativos trabalhavam mais e comiam menos se fossem permitidos mascar a coca. Rações fornecidas pelos conquistadores continham coca, que permitia aos escravos lidar com a miséria diária do trabalho forçado. A coca também se tornou um mercado lucrativo para os colonizadores, que possuíam plantações da droga nos Andes. Em 1569 Filipe II da Espanha declarou que a coca era essencial ao bem estar das índios dos Andes, e ao mesmo tempo urgia os missionários a acabar com o uso idólatra da planta. A igreja católica abandonou suas objeções à droga, já que a taxação sobre a substância tornou-se um rico meio de conseguir dividendos.

Nos séculos 16 e 17 o papel da coca como medicamento para diversos problemas médicos passou a ser reconhecido por médicos espanhóis, que advogavam seu uso para problemas da pele, resfriados, asma, reumatismo, laringites e dores de dentes. Embora a coca tenha sido transportada para a Europa, a substância não foi adotada pelos europeus, provavelmente devido à deterioração das amostras, assim como a aversão ao hábito de mascar as folhas. Apenas em 1750, quando o botânico Joseph de Jussieu em expedição no Peru enviou amostras que a planta passou a ser estudada.
Albert Niemann

A coca era virtualmente desconhecida na Europa até o século 19. O ingrediente ativo da coca foi identificado e isolado por Albert Niemann, na Alemanha, em 1860, ao qual deu o nome de cocaína. Na mesma época, Paolo Mantegazza, um neurologista italiano, descrevia os efeitos da cocaína em si mesmo, relatando detalhadamente os efeitos subjetivos e fisiológicos:

Algumas das imagens que tentei descrever na primeira parte do meu delírio eram cheias de poesia. Eu olhava com desdém os pobres mortais, condenados a viver neste vale de lágrimas enquanto eu, carregado nos ventos de duas folhas de coca, fui voando aos espaços de 77.438 palavras, cada uma mais esplêndida que a anterior.
Após uma hora eu já estava suficientemente calmo para escrever estas palavras com a mão firme: “Deus é injusto porque ele fez o homem incapaz de manter o efeito da coca por toda a vida. Eu preferia viver 10 anos de coca do que 1000000... (e aqui eu inseri uma linha de zeros) séculos sem coca.”
Paolo Mategazza, On the Hygienic and Medicinal Virtues of Coca.

Freud, entusiasmado por este trabalho, assim como o de Theodor Aschenbradt, um médico militar da Bavária, que em 1883 relatou o uso de cocaína para exaustão e como analgésico, auxiliando soldados doentes à retornar à sua função, iniciou em 1884 experimentos com a droga. Em um artigo entitulado “Uber Coca” (1884) ele descreveu as virtudes da droga, declarando que a cocaína poderia ser utilizada para aumentar a capacidade física durante períodos estressantes, restaurar a capacidade mental reduzida pela fatiga, aliviar a depressão, tratar desordens gástricas, asma, alcoolismo, dependência de morfina e como anestésico local. Apenas este último provou ser a única propriedade médica da droga. Freud também tinha motivações pessoais no seu trabalho com a substância: seu amigo, o pesquisador Ernst von Fleischl-Marxow sofria de dependência de morfina derivada da utilização do medicamento para tratamento de dor crônica. Freud prescreveu a cocaína para tratar a exaustão nervosa derivada de abstinência de morfina de Fleischl. Eventualmente Fleischl passou a consumir uma grama por dia e tornou-se o primeiro toxicodependente europeu de cocaína. Ele apresentou delírios paranóides e referia sensações de pequenos insetos sob sua pele.
Ernst von Fleischl-Marxow

Freud, que pensava atingir fama e reputação com base em seu trabalho com a cocaína, viu-se em meio a uma polêmica, apenas três anos depois da publicação de seu trabalho. Erlenmeyer, uma autoridade em toxicodependência, chegou a acusá-lo de ter liberado “o terceiro flagelo da humanidade” (após o álcool e os opióides). Para defender-se, Freud afirmou que a cocaína não causava dependência e que apenas aqueles que anteriormente apresentavam dependência de morfina tornavam-se dependentes de cocaína.

Ao final da década de 1880 ocorreu uma epidemia de cocaína, com a droga sendo injetada pelas classes média e alta. Quase duzentos relatos médicos sobre intoxicação sistêmica por cocaína foram escritos até 1891, treze descrevendo mortes atribuídas à droga. Contrariando o esperado por Freud, um de seus pacientes faleceu de overdose. Robert Louis Stevenson usou a substância enquanto escreveu “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e o Senhor Hyde”. Sherlock Holmes, personagem de Arthur Conan Doyle, injetava cocaína quando entediado pela falta de casos desafiadores. Como resultado do interesse do público, a produção de cocaína pela farmacêutica alemã Merck aumentou de 0,4 quilos em 1883 para 83,343 quilos em 1885. Da mesma forma, o preço da substância cesceu dramaticamente.

Enquanto o entusiasmo europeu pela droga era reduzido pelos diversos relatos de efeitos adversos, o interesse nos Estados Unidos permaneceu alto. Em 1887, o médico americano William Hammond recomendou que a cocaína fosse utilizada no tratamento da depressão, afirmando que não existia um “hábito de cocaína” e que qualquer um poderia abandonar o uso assim que desejasse. Em 1884, William Stewart Halsted, um renomado cirurgião norte-americano, publicou o primeiro de seus trabalhos sob a cocaína. Já em 1883 Koller, impressionado pelo trabalho de Freud, descreveu os poderes anestésicos da substância em cirurgias oculares. Halsted, entretanto, desenvolveu o anestésico para “bloqueio nervoso”. Infelizmente, como muitos de seus colegas da época, Halsted e vários de seus assistentes utilizaram a droga para fins experimentais e tornaram-se gravemente dependentes. Halsted passou por diversas hospitalizações e, numa tentativa reversa do que tinha sido preconizado até então, passou a utilizar morfina para “curar” seu vício em cocaína. Halsted faleceu em 1922, ainda dependente de morfina.

Nos próximos posts: A Era dos Medicamentos Patenteados e o desenvolvimento da moderna epidemia de dependência de cocaína (assim como as referências).

Fotos:
http://library.thinkquest.org/C0115926/drugs/Erythroxylum_coca_Specimen_7239.jpg
http://www.goddessaday.com/images/mama-quilla-160x214.jpg
http://portrait.kaar.at/Musikgeschichte%2019.Jhd/images/albert_niemann.jpg
http://image.absoluteastronomy.com/images/encyclopediaimages/f/fl/fleischl_marxow_2.jpg

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terça-feira, 13 de julho de 2010

O crack: a cocaína da elite chega à periferia

Nomes de rua: Crack, Freebase, Pedra, Rock, Base

O crack é a versão fumada da cocaína, que provê um curto, mas extremamente intenso efeito. A invenção do crack representou uma inovação tecnológica que dramaticamente aumentou a disponibilidade e o uso de cocaína de várias maneiras. O crack pode ser fumado, fato que, do ponto de vista psicofarmacológico, é uma maneira mais eficaz de administrar a droga. Como o crack é composto primariamente de ar e bicarbonato de sódio, é possível vendê-lo em pequenas unidades que contém frações de grama de cocaína pura, o que abriu o mercado a consumidores que não poderiam obter a cocaína, muito mais cara. Como a droga é extremamente viciante e o efeito do uso é demasiado curto, o crack rapidamente gera um grande número de usuários que desejam comprá-lo cada vez mais frequentemente. Os lucros associados com a venda do crack rapidamente eclipsaram os de outras drogas.

Virtualmente desconhecido antes da década de 1980, o crack se espalhou rapidamente nos EUA, partircularmente entre as comunidades negras e hispânicas (Bourgois 1996, Chitwood et al 1996, Fryer et al 2005). Nos anos 70, uma pequena porção de usuários passou a misturar a cocaína (que se fumada não possui efeito euforizante) com éter, para inalação. Esse processo, criou freebase, ou base livre de cocaína, uma droga extremamente perigosa, que causou um certo número de óbitos. O crack, surgido nos anos 80, é outra forma de cocaína fumada, produzido ao se dissolver cocaína em pó em água, com a adição de bicarbonato de sódio (mais comumente) ou amônia e calor. A cocaína e o bicarbonato de sódio formam um condensado leve que, quando seco, toma forma de “pedras” duras, passíveis de serem fumadas. O nome crack deriva do som gerado quando a substância é aquecida. Este processo aparentemente foi iniciado nas ruas decadentes de Miami. Vendido em pequenas quantidades nas ruas, o crack proporcionou um mercado lucrativo para traficantes e gangues de rua (Bourgois 1996, Jacobs 1999).

cocaina freebase


Em setembro de 1986 o então presidente americano Ronald Reagan, acompanhado da primeira dama, informou a nação, em um discurso histórico, que

“As drogas ameaçam nossa sociedade. Elas ameaçam nossos valores e minam nossas instituições. Elas estão matando nossas crianças. (...)Nosso trabalho nunca é fácil pois estes criminosos das drogas são engenhosos. Eles trabalham diariamente para tramar novas e melhores maneiras de roubar a vida de nossas crianças da mesma forma que eles fizeram ao desenvolver esta nova droga, o crack. Para cada porta que fechamos, eles abrem uma nova porta para a morte. Eles prosperam na nossa falta de vontade em agir. ”
Ronald Reagan, “Address to the Nation on the Campaign Against Drug Abuse”, 14 de Setembro de 1986.

Ao final de 1986 mais de mil histórias sobre o crack apareceram na imprensa americana (Glenn, 2006). Esta cobertura midiática foi instrumental em produzir uma consciência pública da percepção de que crack era uma epidemia. Apenas dois anos antes, um estudo do Alcohol, Drug Abuse and Mental Health Aministration (ADAMHA) praticamente não citava o crack como problemático (Glenn, 2006). O consumo de crack nos EUA cresceu rapidamente em 1985, tendo seu pico em 1989 e declinando ligeiramente desde então. O padrão de consumo naquele país concentra-se principalmente em grandes cidades, partircularmente naquelas com grandes comunidades negras e hispânicas. Na Europa, o crack é consumido e visto como droga dos pobres das grandes cidades, embora também seja consumido pelas classes médias, mas sem o aspecto de “epidemia”, como o que ocorreu nos EUA ou no Brasil.

No Brasil o crack aparece nas estatísticas do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil de São Paulo (DENARC) pela primeira vez em 1989. Segundo Domanico (2006), as condições de exclusão sócio-econômica de diversos setores da juventude brasileira assemelhavam-se às condições de exclusão norte-americanas, o que permitiu com que o crack se espalhasse rapidamente no país. Ainda segundo esta autora, a difusão do crack nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo ocorreu de forma periférica, devido à atuação dos traficantes estabelecidos nestes grandes centros, que tentaram impedir a venda do crack pois acreditavam que este seria contraproducente aos seus negócios.

Efeitos físicos


Os efeitos farmacológicos do crack são essencialmente os mesmos da cocaína. Entretanto, como o crack é fumado, o início da ação é muito rápido. Os principais efeitos físicos são boca seca (xerostomia), perda de apetite, sudorese, aumento da frequência cardíaca, ardor nos olhos por irritação da conjuntiva, e cefaléias. O uso repetido de cachimbos de crack, que podem se tornar muito quentes, pode resultar em uma condição conhecida como “crack-lip”, que envolve queimaduras aos lábios e boca.

Forma de administração

O crack é frequentemente fumado, mas também pode ser injetado se dissolvido em sumo de limão ou vinagre e aquecido (pelo mesmo método de preparação da heroína).

Dependência e Abuso

A curta meia-vida da droga (entre 30 a 60 minutos) e a intensa euforia, seguida de sentimentos de depressão e anti-clímax causam poderosa dependência psicológica. Os usuários podem facilmente despender centenas em um dia de binge (uso de forma exaustiva e impulsivo). Parece haver um forte traço compulsivo para muitos comportamentos relacionados ao crack e padrões de uso e compra da substância (mesmo atitudes criminosas) tornam-se ritualizados. Muitos usuários frequentemente utilizam outras drogas (como o álcool, por exemplo) para atenuar os sintomas de abstinência do crack.

Efeitos a longo prazo

O efeito aos pulmões pode ser muito sério, e usuários de longo prazo podem adquirir enfisema. Este é causado tanto pelo fumo intenso quanto pelas substâncias utilizadas quando da preparação do crack.

Referencias:
1. Bourgois, P. 2002. In Search of Respect: Selling Crack in El Barrio. Cambridge University Press
2. Chitwood D, Rivers J, Inciardi J. 1996. The American Pipe Dream: Crack Cocaine and the Inner City. Austin: Harcourt Brace College Publishers.
3. Fryer Jr RG, Heaton PS, Levitt SD, Murphy KM. 2005. Measuring the impact of crack cocaine. NBER Working paper No. 11316, National Bureau of Economic Research. Available at http://www.nber.org/papers/w11318.pdf.
4. Jacobs B. 1999. Dealing Crack: The Social World of Streetcorner Selling. Boston: Northeastern University Press.
5. Glenn JE. The Birth of the Crack Baby and the History that “Myths” Make. Available at http://www.utmb.edu/addiction/Birth%20of%20the%20Crack%20Baby.pdf.
6. Domanico A. “Craqueiros e Cracados: Bem vindo ao Mundo dos Nóias!” Estudo sobre a implementação de estratégias de redução de danos para usuários de crack nos cinco projetos-piloto do Brasil. 2006. Tese de Doutorado apresentada à Universidade Federal da Bahia. Disponível em http://www.scribd.com/doc/7265159/Tese-Andrea.

Foto: http://lawyersusaonline.com/dcdicta/files/2007/12/crack.jpg
http://www.drunkdrivingdefense.com/images/cocaine02.jpg

A propósito:

Recebi este link pelo twitter, que leva à pagina sobre o crack do Ministério da Saúde com maiores informações sobre o crack:
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=33717&janela=1

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

A problemática da toxicodependencia

Uma epidemia de toxicodependência assola o Brasil desde o início dos anos 90 e toda a população sofre as consequências. O pensamento dominante de que o dependente químico é problema da família ou da polícia há muito deixou de encantar. Numa sociedade vitimizada pela avalanche das drogas, todos sofrem, desde o toxicodependente e seus familiares diretos às vítimas diretas da violência do tráfico. No meio deste percurso de demanda e oferta, comunidades são depredadas e perdem seu valor comercial devido à violência, perdemos nossos parques e praças públicas para o constante desmantelamento por parte de indivíduos que apresentam comportamentos antissociais e por medo da violência nos trancamos e perdemos nossa liberdade individual.


Atuar na problemática das drogas requer fino conhecimento da dinâmica do tráfico, que evolui com as mudanças da sociedade, disponibilizando “novas” drogas quando as até então disponibilizadas tornam-se estigmatizadas e de difícil permeabilidade nos novos mercados. Surgem então as designer drugs ou drogas de desenho, que contam não apenas com novos nomes e compostos mas com nova estratégia mercadológica e consumidor final. Estudar como as novas gerações percebem e vivenciam as drogas para prevenir novas epidemias, conhecer os efeitos de cada uma delas e estar alerta para novas ameaças que surgem devido à guerras ou mudanças geopolíticas nos governos de países ligados à produção das drogas também é essencial para se entender os problemas atuais. Mas mais do que isso, atuar a fundo nesta problemática muitas vezes requer medidas políticas que não são populares, como fornecer seringas a usuários de heroína, nem têm resultados facilmente demonstráveis a curto prazo.

O objetivo dos próximos posts não é fornecer informação detalhada sobre os principais sintomas e consequências do uso de drogas. Existem diversas publicações no mercado sobre o assunto que abordam este assunto de forma muito mais aprofundada do que as palavras a seguir. Com estes posts tento fazer um passeio histórico, um esclarecimento sobre o percursso que tomamos como humanidade no uso de drogas, para tentar assim entender os pilares da epidemia de drogas atual, seja o crack no Brasil ou a heroína na Europa. Com o conhecimento histórico pode-se observar como algumas drogas entram e saem da moda, voltando com um rótulo novo, mas sempre causando as mesmas consequências.

Os posts foram retirados de um trabalho que realizei para melhor entender a progressão histórica das drogas e seu entendimento moderno. Pode-se dizer que escrevi um "rascunho de um livro" que agora compartilho com os leitores do blog.


Foto: http://img.timeinc.net/time/quotes/2008/10/1015_meth.jpg

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Debate sobre o crack

Eu sempre acompanho o jornal de minha cidade Correio de Uberlândia. Acompanho online, é claro. Gosto de saber como andam as pessoas que conheci e de matar a saudade também.

Ontem notei que o jornal postou diversos vídeos que foram ao ar no Canal da Gente (um canal local) sobre a epidemia de crack. Os três vídeos (o link está abaixo) fazem parte do mesmo debate e constam, aparentemente,  com dois ex-usuários (um deles responsável por uma clínica de desabituação), uma psicóloga e, grata surpresa, o médico pisquiatra Dr. Alexandre Henrique Correia Rosa, que estudou comigo.

O link é:
http://www.correiodeuberlandia.com.br/galeria/15/video/1390/5/2-crack.html

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A heroína mais perto do Brasil

Entender a questão do tráfico e uso de drogas é complexo. O uso de drogas é multifatorial e pode ser traçado até 5000 antes de Cristo, quando babilônios maceravam a papoula para fazer bolos e obter maior prazer sexual. O uso excessivo de álcool é descrito na Bíblia: Noé era alcoolista e isso o colocou em uma posição vulnerável para ser abusado por um de seus filhos.

A questão do porque no Brasil se usa o crack e em Portugal, por exemplo, a heroína domina o cenário também tem a ver com a lei da oferta e procura. A heroína na Europa é muito mais barata do que no Brasil, que faz fronteira com a Colômbia e inunda o país com cocaína e crack de qualidade. Já na Europa, a heroína vem através dos países mediterrâneos (Portugal, Espanha, Turquia), provida pelos países do norte da África. Com o baixo custo há maior incentivo ao uso. Para entender o mercado da droga, há que se entender também um pouco de logística e marketing: gerações que cresceram a testemunhar a devastação que uma droga específica causou na geração anterior (por exemplo, a heroína na geração européia dos anos 80) são menos propensos a usar esta droga. Daí a inovação constante no mercado da droga, com a criação do crack nos anos 80 e das drogas sintéticas (ecstasy) recentemente, estas últimas vendidas como "inócuas" à geração das raves.

Entender isso é importante para se preocupar com o vídeo abaixo. Nele, investigadores americanos mostram os campos de papoula da Colômbia, que tem diversificado sua produção. Com a heroína tão perto do Brasil, o preço deve cair. Como nunca tivemos uma epidemia de consumo da heroína, a população brasileira é de certa forma "virgem" à este produto e um grande mercado potencial.

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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Portugal e a droga

Uma amiga do twitter me mostrou o link para esta reportagem da Época, uma revista semanal brasileira. Transcrevo o texto aqui para que os colegas lusitanos também possam ler o que se diz de suas práticas na área da toxicodependência. O texto original pode ser acessado no link abaixo. As fotos são do mesmo artigo.


05/02/2040 - 20:43 - Atualizado em 06/02/2010 - 10:03

A lição dos portugueses

Tratar o usuário de drogas como paciente, e não como criminoso, reduziu o consumo em Portugal. Isso pode dar certo também no Brasil?

Usuário fuma maconha numa rua do Porto. Deixar de prender não incentivou

Andres Vera

Dez anos separam duas realidades de um mesmo país. Até 2000, Portugal era tomado pela pior epidemia de drogas de sua história – e uma das mais graves da Europa. Hoje, os portugueses orgulham-se de sua bem-sucedida política de descriminalização. Na década de 1990, o país chegou a ter 150 mil viciados em heroína (quase 1,5% da população). Em 2001, o governo português arriscou: descriminalizou a posse individual de todas as drogas, da maconha à heroína. De lá para cá, a polícia portuguesa não prende quem porta pequenas quantidades de droga. No lugar da punição, os usuários flagrados são encaminhados para tratamento. Quando essa decisão foi aprovada pelo Parlamento, temia-se uma explosão no consumo. Mas o que se vê agora é uma queda no uso de todas as drogas e em todas as faixas etárias (leia nos quadros) .

Os números positivos da descriminalização só vieram a público no ano passado, com a publicação de um relatório do Cato Institute. Entre 2001 e 2006, as mortes por overdose caíram de 400 para 290. O registro de pessoas infectadas pelo HIV por compartilhar seringas contaminadas passou de 2 mil para 1.400. Mais importante: Portugal não virou destino para jovens europeus dispostos a se drogar sem que a polícia os incomodasse.

A teoria por trás da política liberal de descriminalização se baseou numa premissa humanista: “Você precisa fazer uma escolha entre tratar o usuário como criminoso ou como um paciente que precisa de ajuda”, diz Manuel Cardoso, diretor do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). Para a lei portuguesa atual, quem é flagrado usando ou portando pequenas quantidades de droga não responde criminalmente. O limite é uma dose suficiente para dez dias de consumo. Se apanhado pela polícia, no entanto, esse usuário será encaminhado para uma “comissão de dissuasão”. No ano passado, cerca de 7.500 portugueses passaram pelas comissões. Um psicólogo, um advogado e um assistente social avaliam o perfil do usuário e recomendam tratamento ou multa. A penalidade para os traficantes em nada mudou. Quem negocia qualquer tipo de droga vai para a cadeia como um criminoso comum.

A medida pode parecer radical, mas seus efeitos mostram que ela teve êxito ao enfrentar a explosão da droga, iniciada nos anos 70, no embalo das mudanças de comportamento que sacudiram o país com a Revolução dos Cravos. Quando Portugal decidiu mudar sua lei antidrogas, em 2001, a Europa carregava na memória as imagens deprimentes de “zumbis” vagando pela Platzspitz, em Zurique, na Suíça. Lá, o que era para ser uma praça pública para os usuários se drogarem de maneira “segura”, com vigilância médica e seringas limpas, transformou-se num parque de diversões para drogados e traficantes. A Suíça reconheceu o fracasso da medida e fechou a praça em 1992.

A experiência de descriminalização em Portugal não repetiu o fracasso dos suíços. As primeiras estatísticas a chamar a atenção das autoridades portuguesas foram as do sistema de reabilitação dos usuários de drogas. De 1999 a 2008, o número de viciados que passaram por tratamento saltou de 6 mil para 24 mil. Para atender os novos usuários que procuraram a reabilitação, o uso de metadona, uma substância química usada no tratamento de toxicodependentes de heroína, quase triplicou entre 2001 e 2006. “Quando era tratado como criminoso, o usuário ficava no submundo”, diz Cardoso. “É esse o usuário que agora busca tratamento.”

O crescimento da procura pela reabilitação não mostrou nenhuma relação com o aumento do consumo – um dos maiores temores de quem criticara a lei no passado. As estatísticas do IDT mostram que o número de crianças e adolescentes que já experimentaram algum tipo de droga na vida diminuiu em todas as faixas etárias e em todos os tipos de droga. O uso de heroína, um indicador muito sensível para os portugueses que se lembram da epidemia da droga, continuou estável. Entre 2001 e 2007, a porcentagem de pessoas de todas as idades que admitem ter experimentado a droga pelo menos uma vez passou de 1% para 1,1%, uma diferença considerada insignificante pelos estudiosos.

A maconha, droga que já foi consumida por pelo menos 10% dos portugueses acima dos 15 anos, também parece ter saído de moda. Hoje, Portugal está entre os países com um dos menores índices de consumo da droga na Europa. O número impressiona quando comparado, por exemplo, ao consumo de maconha nos Estados Unidos, onde 39% da população acima de 12 anos já consumiu a droga. Proporcionalmente, há mais americanos cheirando cocaína que portugueses fumando “baseados”. Esse tipo de comparação virou argumento poderoso para os defensores da descriminalização. “Portugal é um exemplo que deveria ser cuidadosamente levado em conta por outros países”, escreveu o advogado americano Glenn Greenwald, diretor do Cato Institute e autor da pesquisa sobre a descriminalização.

Greenwald, considerado um dos advogados mais influentes dos EUA, ressalta outra vantagem: o tráfico de drogas parece ter diminuído. O número de traficantes acusados pela Justiça portuguesa diminuiu depois da lei. Em 2000, houve 2.211 acusações. Em 2008, foram 1.327. Se o rigor da polícia e da Justiça portuguesas se manteve inalterado na última década, isso poderia mostrar que a “guerra contra as drogas” defendida pelos Estados Unidos tem uma natureza falha.

Diante de tantas evidências positivas, onde estaria a fragilidade do modelo português? Os números imediatamente apontam para dois problemas: crescimento do uso de cocaína e do número de mortes relacionadas ao uso de drogas a partir de 2006. O governo português diz que existem apenas problemas pontuais, causados por tendências de consumo ou por mudança de metodologia, e que isso não tira sua credibilidade. É nesse ponto que alguns especialistas discordam. Muitos acreditam que Portugal só atingiu tantos resultados porque acompanhou uma onda de diminuição do consumo de todas as drogas verificada na Europa.

Outros críticos dizem que o tamanho de Portugal, com cerca de 10 milhões de s habitantes, não serve de parâmetro para determinar se a descriminalização funcionaria, por exemplo, nos Estados Unidos. Todos concordam, pelo menos, que se a experiência da descriminalização em Portugal não ajudou, ela também não atrapalhou, a exemplo da desastrosa experiência de Platzspitz. As únicas certezas empíricas dizem que a distribuição de seringas limpas realmente reduz o número de infectados pelo HIV. Mas ninguém conseguiu entender, por exemplo, por que a Polônia, sem nenhuma política antidrogas digna de menção, tem as taxas de consumo de cocaína mais baixas da Europa.

Os liberais continuam acreditando no bom exemplo português. No começo do ano, um estudo da revista The Economist feito em parceria com as Nações Unidas investigou a relação entre narcóticos e níveis de punição em 17 países. A conclusão do estudo: não existe relação entre as duas coisas. Uma comparação entre dois países opostos no quesito “rigor punitivo”, a liberal Holanda e a rigorosa Suécia, mostrou que a legislação não interferia nos problemas que esses países enfrentavam para tratar os dependentes químicos. Nos EUA, onde imperam as mais duras regras contra o tráfico e o consumo, as drogas continuam um flagelo.

O que a descriminalização das drogas em Portugal tem a ensinar ao Brasil? “Escolher o modelo ideal é uma questão de vontade política e, principalmente, de pragmatismo”, diz Manuel Cardoso. A favor da descriminalização da maconha (e não de sua legalização, que suporia a legitimidade da produção e da venda da droga) estão três ex-presidentes latino-americanos: o brasileiro Fernando Henrique Cardoso, o colombiano César Gaviria e o mexicano Ernesto Zedillo. Há um ano, na Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, exibiu-se o principal argumento desse grupo, um que explica o sucesso de Portugal: os bilhões de dólares que governos gastam prendendo e processando usuários de drogas teriam mais utilidade se destinados a programas de reabilitação. Se é verdade que o tamanho e a cultura de Portugal não traduzem o que poderia acontecer no Brasil, a experiência argentina de descriminalização da maconha, em vigor desde agosto, mostrará a chance de uma política liberal vingar na América Latina. Em Portugal, até agora, parece ter vingado.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Campanha contra o crack

Mais sobre a Campanha do Ministério da Saúde Brasileiro contra o crack:

O Ministério da Saúde fez um update no site com novos vídeos em uma campanha denominada "Nunca experimente o crack. Ele causa dependência e mata". Os usuários também podem fazer uploads de seus vídeos.

Para acessar o site clique aqui.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Notícias em toxicodependência

Ainda do clipping da ABP:

Cientistas descobrem mecanismogenético do vício de cocaína
Processo ajuda a explicar dependência e abre caminho para novos tratamentos
Veículo: Portal R7
Seção: Tecnologia e Ciência
Data: 07/01/2010

Mãe dependente química deve ser internada junto com a criança?
“Tratamento já tem sido realizado junto de filho menor de idade em alguns centros sérios ao redor do mundo”
Veículo: Vyaestelar
Seção: Vya estelar responde
Data: 07/01/2010

Trabalho num Centro de Recuperação de Dependentes Quimicos. Esta semana nos procurou uma mulher, dependente química de drogas (crack), com um filho recém-nascido há 15 dias. Psiquiatricamente é viável interná-la para tratamento junto com a criança?
Resposta: Esta pergunta requereria uma resposta bastante longa, já que envolve vários aspectos médicos, éticos e jurídicos.
Correndo o risco de ser simplista, respondo, a priori, que o tratamento de mãe com quadro de Síndrome de Dependência de Substâncias Psicoativas já tem sido realizado junto de filho menor de idade em alguns centros sérios ao redor do mundo, sob regime de internação.
No entanto, para que isso seja feito, é necessário um programa de tratamento bastante rigoroso e complexo para o manejo tanto da mãe quanto da criança, além de promover todos os cuidados de que a criança e o adulto necessitam. Não estou certo se existem clínicas no nosso país plenamente estruturadas para fornecer esse tipo de abordagem de forma efetiva e segura em um ambiente de internação, em comunidades terapêuticas, por exemplo.
Internar a mãe junto com seu filho significa ter uma clínica que, além de contar com uma programação de tratamento extremamente organizada e cientificamente embasada, possua profissionais amplamente habilitados no manejo tanto dos quadros de dependência química, quanto do desenvolvimento da criança. Psiquiatras (especialistas em Dependências Químicas e em Psiquiatria Infantil), psicólogos (especialistas em Dependências Químicas, Psicologia do Desenvolvimento, Terapia Sistêmica), assistentes sociais, pediatras, clínicos gerais, enfermeiros (especialistas em Psiquiatria e Pediatria) e nutricionistas serão todos necessários, formando um time de profissionais altamente engajados no manejo médico, psicológico e social dos pacientes maiores e menores de idade. Além disso, a equipe deve de fato ser interdisciplinar. Percebe-se que, além de cara, deve ser uma equipe bastante engajada funcionando 24 horas por dia.
De fato, nos anos seguidos a 1990, um pequeno grupo de programas nos Estados Unidos dedicado ao tratamento de alto investimento para Dependências Químicas aventurou-se nesse território até então desconhecido: promover um programa terapêutico de internação para as mães dependentes químicas junto de seus filhos menores de idade.
Um desses programas desenvolveu-se em Miami, Flórida (The Village South, Inc.). Hoje, o programa conhecido como Families in Transition (FIT) é reconhecido local e nacionalmente como um modelo em que pais e filhos são tratados de forma integrada; assim, à medida que um genitor se recupera da sua doença (Dependência Química), os múltiplos riscos à criança – de doenças, falha escolar, perturbação emocional, futuro abuso de substâncias, negligência parental, alienação – são reduzidos.
Nesse programa, por exemplo, as famílias devem progredir de um período de intenso tratamento e reunificação familiar para um período de progressiva independência em que os pais treinam continuamente suas habilidades sociais, cognitivas e afetivas, assumem suas responsabilidades (inclusive a de ser pai ou mãe), e se preparam para a re-inserção social.


Objetivos do programa
Esses programas altamente estruturados devem, dentre outras tarefas, promover:
• Tratamento adequado para os quadros de Dependência Química;
• Manejo dos quadros de Síndrome de Abstinência;
• Envolvimento de outros familiares no tratamento, inclusive aqueles que não estão internados;
• Visitações ao ambiente familiar no qual mãe/pai e filho retornarão (ou irão);
• Cuidados médicos e psicológicos adequados às crianças;
• Instalação de programas educacionais para as crianças, altamente individualizados;
• Segurança e ambiente acolhedor;
• Manutenção/aperfeiçoamento/desenvolvimento do relacionamento genitor – filho (ensinar a “arte de ser pai / mãe”).


Sem dúvida, a lista não termina aqui. Muitos desses programas se baseiam na crença de que a Dependência Química é uma das formas para perpetuar e agravar a disfunção familiar crônica. Dessa forma, o tratamento objetiva equilibrar/estabilizar os relacionamentos familiares, revelando o quanto o consumo de substâncias torna inaceitável e impossível o convívio familiar.
Estes programas sustentam que a sobrevivência e o sucesso dos filhos são tão importantes quanto a recuperação dos genitores. E, além disso, que as crianças podem se recuperar do trauma relacionado ao problema de drogas dos seus pais e iniciar uma vida saudável e produtiva. Todos os profissionais envolvidos nesses tipos de programa devem ser adequadamente treinados para pensar dentro de uma perspectiva sistêmica. Todos devem entender como cada componente do programa contribui para melhorar o funcionamento familiar e possibilitar o sucesso do tratamento.
Se assim não for, os profissionais especializados na infância/adolescência focarão a atenção apenas no cuidado às crianças; os terapeutas de adultos focarão o trabalho apenas no problema do consumo inadequado de substâncias do adulto; os assistentes sociais apenas focarão na identificação de referências e contra-referências e, dessa forma, nenhum trabalho interdisciplinar terá acontecido. O treinamento de uma equipe exige tempo, seriedade, compromisso, respeito mútuo, adequada formação acadêmica e grande investimento.
Entretanto, embora a missão desses programas seja a unificação familiar e a promoção do bem-estar, infelizmente existem casos em que o próprio staff recomenda que a criança seja afastada dos seus genitores, quando a segurança e o bem-estar do menor estão em risco. Frequentemente, a principal razão tem sido a inabilidade do genitor em manter a sobriedade. Também, a presença de outro transtorno mental grave em conjunto com a Dependência Química pode ser um fator complicador a mais. Essas decisões são bastante difíceis para os profissionais e a presença de um operador do Direito na equipe, sempre respeitando os limites éticos e as respectivas atribuições, pode ser bem-vinda. Reitero que recomendações desse tipo devem ser adequadamente embasadas cientificamente, contando com profissionais altamente qualificados na matéria específica.
Em muitos casos o consumo inadequado de substâncias psicoativas está atrelado a outros inúmeros problemas sociais. De acordo com as estatísticas do programa citado (The Village South, Inc.), uma entre quatro famílias não tinha residência fixa antes de dar entrada no tratamento; metade das mães não tinha completado o ensino médio; apenas 13% tinham emprego formal.


Limitações do programa


Apesar de atraentes à primeira vista, esses tipos de programas não são livres de críticas e limitações. Abaixo, compilo algumas delas:


a) Esses programas poderiam limitar o acesso da criança a outros familiares que estariam em condições de serem tutores, mesmo que temporários. Além disso, a estadia prolongada da criança em uma clínica poderia enfraquecer ou mesmo fraturar algumas de outras conexões importantes com o meio social;


b) Programas como esses são muito caros e não existem pesquisas suficientes para apoiar a crença de que eles são mais eficazes do que uma forma menos onerosa (por exemplo, em hospital-dia, centros de atenção psicossocial, etc). De outra forma, os filhos, mesmo não estando internados, poderiam ter acesso continuado aos pais na clínica e também receber tratamento adequado dentro ou fora da clínica. Aqui, o problema seria identificar um familiar confiável e comprometido (o que, infelizmente, não é sempre possível);


c) A presença dos filhos na comunidade terapêutica junto do genitor dependente químico poderia também desviar o foco do tratamento, se a equipe não souber adequadamente manejar os casos;


d) Pesquisas sobre a efetividade desses programas, tanto em termos de cessação do consumo de substâncias pelos genitores, quanto em termos de funcionamento familiar pós-internação e desenvolvimento psicológico e social dos menores, ainda estão em sua infância. Além disso, pesquisas para avaliar todos estes aspectos são muito difíceis e onerosas.


De qualquer forma, a paciente em questão e o seu filho precisam receber tratamento e suporte adequados. Acolher ambos, promover uma intensa busca por familiares continentes (com o suporte da própria mãe), conduzi-los para um hospital geral (onde existem enfermarias pediátrica e psiquiátrica) onde ambos possam ser adequadamente examinados e tratados inicialmente seriam condutas recomendadas.


Não podemos nos esquecer de que existem várias formas de tratamento para as Dependências Químicas, e a internação em Comunidades Terapêuticas ou Clínicas é apenas uma delas.
Para cada tipo de forma de tratamento, existem recomendações e indicações específicas, e as indicações devem ser realizadas por médicos especialistas.
Simplesmente liberar uma mãe desesperada que relata grande fissura por drogas e descontrole, carregando um filho recém-nascido nos braços não seria conduta correta. Nesse caso, o profissional de saúde tem um triplo papel: com a mãe, com a criança e com a sociedade. Se a mãe é portadora de uma doença médica, ela merece um tratamento adequado. A criança precisa de cuidados médicos e psicológicos adequados, de uma família (inclusive da própria mãe) e de oportunidades para poder desenvolver-se adequadamente.
Com bom senso, boa ciência e adequado diálogo entre diversos profissionais engajados e interessados, uma boa conduta e consequentemente bom resultado poderão ser atingidos.

Danilo Baltieri
Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

História de superação das drogas III

Pelo que me parece há no momento marketing sobre uma novela que esta ou estara no ar no Brasil que se chama Viver a Vida, na qual o tema é superação. Não sei nada sobre o assunto pois estou a morar fora do país desde 2005. O que sei é que tenho recebido recentemente inúmeros links com histórias de pessoas reais que têm lutado e vencido doenças e tragédias pessoais. Independentemente do porquê elas estão a circular na internet no momento, acredito que estas histórias têm seu lugar como textos de motivação e por isso resolvi lhes dar espaço neste blog. Hoje recebi estas histórias que estão em um site do portal Globo.



Desirêe Ramos – Versão estendida


sáb, 17/10/09por TV Globo
categoria Drogas
tags Desirêe


Desde pequena, Desirêe era uma criança compulsiva. Manipulava as pessoas para satisfazer suas vontades. Apanhou muito na infância. Aos 11 anos, começou a sair de casa para se enturmar com meninos mais velhos. Fugia, mas sempre voltava. Até que um dia, fugiu e ficou mais de um ano sem aparecer. Começou a se drogar, a beber, com apenas 12 anos.

Tempos depois, entre idas e vindas de casa, se apaixonou por um menino e resolveu fugir para Florianópolis atrás dele. Foi aí que, aos 14 anos, começou a usar o crack e a se prostituir para conseguir a droga. Certa vez, quando havia virado menina de rua e estava no fundo do poço, um rapaz a viu e a levou para uma clínica de reabilitação. Entre muitas recaídas, conheceu o Paulo, que hoje é seu marido. Fez o tratamento, voltou a estudar e hoje leva uma vida feliz e sem drogas.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Notícias em toxicodependência Robert Downey Jr. — Accidental Drug Addict



ROBERT Downey Jr. tornou-se dependente químico por acidente.


O astro de Iron Man - que foi preso e participou de reabilitações às drogas diversas vezes entre 1996 e 2001 - insiste que ele havia prometido a si mesmo nunca experimentar narcóticos classificação A (opioides, crack e cocaína) e só notou que tinha um problema quando tinha que usar drogas para se livrar de seus sintomas "de gripe".
"Da primeira vez foi ópio" - o ator disse à revista britânica Esquire. "Da segunda vez parecia ópio. Assemelhava-se a ópio, cheirava o mesmo, talvez um pouco mais sujo (...) e quando acordei 3 semanas depois, e pensava que estava gripado, usei mais uma vez, olhei para cima e disse "Beleza. Agora somos drogados. Que grande m****!"

"Eu sempre fui o cara que dizia "Não à heroína e não ao crack". Mas não importa se você passa 10 anos sem usar. Porque no dia 3551 é a sua vez."
O ator de Sherlock Holmes também admitiu ter lutado para largar o vício e achou-se vez e outra de volta às clínicas de recuperação.

“I’m Retread Fred, recaído serial”

Foto: http://sporeflections.wordpress.com/2009/03/26/my-doppelgangers/

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Contra factos não há argumentos



Se tem uma frase que aprendi em Portugal e não me canso de repetir é "Contra factos não há argumentos". Os brasileiros não tem tal expressão, utilizada geralmente para encerrar uma discussão e mostrar o lado mais forte do debate. Essa frase veio-me à cabeça e tem circulado em meus pensamentos cada vez que leio notícias sobre políticas da toxicodependência.
Acho que deve ser ano eleitoral no país, pois tenho lidos nos jornais desde o meio deste ano uma certa movimentação de bastidores e reativação de alianças políticas. E como não poderia deixar de ser, a toxicodependência entra em debate, sendo um dos carros fortes das políticas públicas de saúde portuguesas.
Aqui devo esclarecer: eu não voto em Portugal e nem mesmo moro mais no país. Entretanto, como profissional que lida com a dependência química e, tendo testemunhado como estrangeira os bons caminhos da assistência em saúde mental e toxicodependência deste pequeno país europeu, quando comparados com outros países que visitei e vivi, não pude me conter em escrever este relato.
Sei que sou ingênua no campo político, mas ainda acho incrível como pessoas que têm muito pouco peso no assunto tem à disposição tanto tempo na comunicação social (mídia) ou muito peso como aliados políticos. Já há muito que no campo da Medicina a ciência e o poder estatístico, que comprovam a veracidade de uma determinada intervenção, é que determinam se há ou não melhora de determinado quadro. Esta atitude científica do último século possibilitou a revolução na saúde, que testemunhamos e usufruímos nas últimas décadas. Mesmo tendo escrito um artigo recente sobre a constante prevalência da psiquiatria biológica sobre as demais formas de investigação, em hora nenhuma neguei o seu peso e validade no exercício deste campo da medicina.
E é aqui que entra o problema da toxicodependência, ainda um campo de batalha "sem dono". A psiquiatria estuda-a e a categoriza em seus tratados e sistemas classificatórios. As associações de doentes, seja o AA ou NA não aceitam o modelo médico e procuram se entregar a "um poder maior" (método que tem sido justificado em diversas pesquisas). Criminalistas, sociólogos, experts de todas as áreas têm algo a dizer sobre o assunto. Mas em geral, dentro de seus próprios discursos, há uma certa concordância, uma norma que todos procuram cumprir.
Por isso causa-me tanta confusão a presença de uma figura que distoa de todos os experts acima no cenário da toxicodependência portuguesa. Este médico é um cirurgião (que parece também ter exercido a medicina desportiva), que eventualmente acabou por trabalhar com adictos\dependentes químicos e escreveu alguns livros sobre o assunto. Em uma rápida busca no PubMed, site que disponibiliza os textos científicos das áreas da biologia, não foi possível encontrar um trabalho do "pesquisador" sobre o assunto. E o trabalho científico publicado após peer review (revisão crítica por pares) é um dos pilares sagrados da "Medicina baseada em evidências". Porque fora dele, eu posso escrever o que bem quiser, que a esquizofrenia é causada por ondas eletromagnéticas solares ou que a depressão não existe mas é somente uma disfunção dietética.... mas isso não é ciência...é fé. E desde os trabalhos de Galeno, Newton e outros temos de provar o que dizemos (q.e.d - quod est demonstratum). Contra factos não há argumentos.
Um homem que diz, nos dias de hoje, apesar de todas as evidências em contrário, que a toxicodependência não é doença, mas uma fraqueza moral, que tenta nos vender a idéia de que um País sem drogas é completamente possível (mesmo que a história da humanidade se entrelace com o uso e abuso de álcool e opióides desde a pré-história) e que escreve um livro que diz que apenas o esporte pode curar a dependência química não deveria fazer parte de qualquer discurso político sério sobre o assunto.
Este texto não é uma crítica pessoal ao médico em questão. Embora discorde de todas as suas visões sobre o campo da toxicodependência, eu o conheci pessoalmente e sei que pessoa agradável é, um charmoso bon vivant (no melhor sentido da palavra), interessado em bons vinhos, refeicões e mulheres. A crítica aqui, dá-se aos políticos e à comunicação social, que lhe atribuem tanto tempo nas telas e jornais.
Tantos bons pesquisadores nas áreas e os políticos até hoje (seja no Brasil ou em Portugal) não aprenderam a cercar-se deles para definirem estratégias certas e de base para se tratar dos problemas, sejam eles sociais, criminais ou de saúde...
É.... contra factos não há mesmo argumentos.

Foto: A tríade da medicina baseada em evidência, disponível em http://med.fsu.edu/informatics/EBMtriad.jpg

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Notícias em toxicodependência


Aumenta o número de britânicas adictas\dependentes de cocaína (Informe do National Treatment Agency for Substance Misuse, divulga aumento de 60% no consumo de cocaína entre mulheres).

É como diz um ditado inglês: "Monkey see, monkey do"








Maconha eleva risco de esquizofrenia em até seis vezes, diz estudo Resultados foram parcialmente publicados ontem, na edição de dezembro do "British Journal of Psychiatry" (Folha Online)

Laboratório americano desenvolve vacina contra o crack e a cocaína (Globo News)
 
Mudou de patamar

Ruy Castro
Veículo: Folha de S Paulo
Seção: Opinião
Data: 02/12/2009

Em Maceió, na semana passada, mais uma mãe acorrentou a filha à cama para evitar que saísse à rua e fosse assassinada por traficantes, com quem tinha uma dívida pesada por drogas. A garota, 15 anos, é dependente de crack desde os 12; também já é mãe e costuma se prostituir em função do produto. Em contrapartida, relatos sobre pais que saem para buscar crack e abandonam seus bebês em casa durante horas são diários e em todo o país.

Em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, também na semana passada, um casal usuário de crack, num surto de abstinência, arremessou o filho de 1 ano e 3 meses contra a parede. Ainda em BH, um pai chamou a PM para conter a agressividade do filho, 29 anos, que fumava crack em casa e o ameaçava. À chegada da polícia, o rapaz reagiu com uma faca e foi morto com 12 tiros, na frente da família.

No Rio, perto da Mangueira, um homem de 65 anos matou a filha, de 42, com uma facada no coração. A moça e o marido, dependentes de crack, tentavam agredir a mãe dela, usando uma barra de ferro e uma garrafa quebrada. O pai pegou uma faca de cozinha e, para defender a mulher, acertou a filha. Há pouco mais de um mês, idem no Rio, outro dependente, 26 anos, foi entregue à polícia pelo pai após matar a namorada, de 18. Com o crack, nenhuma família fica de pé.

O problema da droga no Brasil mudou de patamar. Não se trata mais de jovens que, depois de anos de uso esporádico e recreativo de drogas "leves", tornam-se dependentes e problemáticos. Agora, usou, bateu -ninguém usa crack recreativamente-, em todas as faixas sociais, culturais e de idade.
Sim, o ser humano sempre usará drogas. Se houver oferta. Há menos de dez anos, o crack estava restrito a uma esquina de São Paulo. Não se cuidou dele e, agora, o drama é nacional. E ninguém está a salvo.

Foto: Amy Winehouse por http://cm1.theinsider.com/thumbnail/400/339/cm1.theinsider.com/media/0/557/37/amy_winehouse.jpg

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A Vulnerabilidade Do Toxicodependente Ao HIV




Em homenagem ao dia mundial da luta contra a AIDS, vou publicar um post retirado da minha tese de mestrado. Defendi a dissertação "Crenças, comportamentos, atitudes e status serológico ao VIH\SIDA em dependentes químicos" na Universidade do Porto. Os resultados evidenciaram que, apesar de conhecer e compreender os riscos inerentes ao comportamento sexual e ao consumo injetável, mesmo assim sua prática continua nestas populações.

Aqui um post específico sobre a vulnerabilidade dos dependentes químicos ao HIV, de minha autoria.

"A vulnerabilidade individual da população toxicodependente ao VIH é face importante de qualquer análise sobre a alta prevalência do vírus nestes indivíduos, consumidores endovenosos ou não. Esta vulnerabilidade depende do comportamento individual e compartilhado que, por sua vez, depende de atitudes, práticas e conhecimentos individuais e do grupo. Ignorância quanto aos riscos do consumo endovenoso, por exemplo, especialmente no que tange à transmissão do vírus VIH ou pouca preocupação quanto a estes riscos criam uma vulnerabilidade psicológica que pode levar à participação em práticas de consumo perigosas, que aumentam o risco de transmissão do vírus. O grau de dependência, e portanto, de severidade da síndrome de abstinência afecta a habilidade do indivíduo em praticar seu consumo de forma segura (WHO, 2005). O grau de dependência também é causa da marginalização destes indivíduos, levando-os a cometer actos de risco para obter a substância como prostituição e relações sexuais desprotegidas. Assim sendo, conhecer para actuar em determinantes individuais de vulnerabilidade ao VIH entre os usuários de drogas, crenças e atitudes em relação ao VIH/SIDA torna-se um importante aspecto na prevenção da epidemia.



Os toxicodependentes, apresentam aspectos de organização social que podem aumentar a vulnerabilidade à infecção pelo VIH. Os consumidores de substâncias estão em geral socialmente marginalizados, o que leva a formação de subculturas da toxicodependência, alienadas da comunidade principal. Estes indivíduos têm pouco acesso ou não confiam nas estruturas formais de saúde, não recebendo conhecimentos transmitidos por estas instituições, o que aumenta sua vulnerabilidade ao vírus. O estigma social e legal experimentado pela vasta maioria de consumidores de substâncias ilícitas faz com que grande parte de suas vidas ocorra escondida da comunidade, criando dificuldades na criação de programas específicos e dificultando o acesso para o envolvimento nas actividades protectoras da mesma (WHO, 2005).


Teorias sociológicas postulam que a sociedade é fragmentada em pequenas subculturas e que são os membros pertencentes ao meio do indivíduo, o grupo de pares no qual a pessoa se identifica como parte, que têm a mais significativa influência no comportamento individual (King, 1999). Normas sociais, critérios religiosos e as relações de poder entre os sexos e entre os pares infundem significado no comportamento, moderando a permissão a mudanças, positivas ou negativas. Uma forma ideal de comunicação, adequada ao trabalho de prevenção, seria a que personaliza e combina a mensagem da prevenção para uma audiência específica, toxicodependentes, com a finalidade de provocar a mudança comportamental (Pandey, 2005).


Nos últimos anos, entretanto, pesquisas sobre a organização da rede social de utilizadores de drogas injectáveis evidenciaram resultados provocativos. Estes estudos contradizem directamente a visão do usuário de drogas como isolado socialmente de todas as influências a não ser as de outros usuários. Estereótipos negativos dos consumidores de substâncias nutrem a noção de que, motivados única e exclusivamente pela necessidade pungente de obter uma dose, estes indivíduos inevitavelmente rompem todos os laços sociais. Estudos recentes revelaram que muitos consumidores endovenosos do sexo masculino mantêm longos relacionamentos amorosos com mulheres que não injectam drogas, enlaçando este homem, mesmo que frouxamente, a uma rede social maior, que não é composta exclusivamente por usuários de drogas (Wermuth, Ham, & Robbins, 1992; Auerbach, Wypijewska & Brodie, 1994)."

Referências

Auerbach, J. D., Wypijewska, C. & Brodie, H. K. H. (Eds). (1994). AIDS and Behavior –An Integrated Approach. Washington, D. C., E. U. A.: National Academy Press.
 
Becker, M., & Joseph, J. (1988). AIDS and behavioral change to reduce risk: a review. American Journal of Public Health, 78 (4), 394-410 DOI: 10.2105/AJPH.78.4.394
 
King R. (1999). Sexual Behaviour Change for HIV: Where have Theories Taken Us? Genebra, Suíça: UNAIDS.
 
Pandey, I. (2005). Effective Communication in HIV/AIDS Prevention in India. Dissertação de mestrado em Business Administration não publicada. International Development Department, School of Public Policy, MBA Public Service (International Stream). Birmingham, Reino Unido.
 
Wermuth, L., Ham, J., & Robbins, R. (1992). Women don’t wear condoms: AIDS risk among sexual partners of IV drugs users. In J. Huber & B. Schneider (Eds.), The Social Context of AIDS (pp. 72-94). Newbury Park, C. A., E. U. A.: Sage.
 
WHO (2005). Policy and Programming Guide for HIV/AIDS Prevention and Care Among Injecting Drug Users. Genebra, Suíça: WHO.

ResearchBlogging.org

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sábado, 28 de novembro de 2009

Uma visão artística da dependência química e da recuperação

Quando morei em Portugal, a novela da SIC Vingaça estava no ar. Era até divertida, mas perdi muitos capítulos e nem mesmo sei como terminou (se alguém assistiu e quiser me iluminar, fique a vontade para escrever um comentário).
Lembro-me que a trilha sonora era muito boa e comprei o CD. Nele estava uma música do Blue October (era tema do Rodrigo Lacerda!) que nunca tinha ouvido, que trata da toxicodependência de uma forma muito profunda.

Geralmente quem não está diretamente envolvido na problemática e no tratamento de toxicodependentes rapidamente se esquece, em meio à criminalidade e aos comportamentos antissociais, que eles também sofrem. Todos neste contexto sofrem: a família, a sociedade e o usuário. A compulsão pela substância acaba por consumí-lo numa espiral que, embora o paciente veja onde vai, não consegue pará-la. E é por isso que gosto muito da música a seguir, que mostra a dor dele (como dependente) e a que causa à mãe.

A letra, vídeo e tradução para o português vão abaixo.

Hate Me - Blue October




I have to block out thoughts of you so I don't lose my head
They crawl in like a cockroach leaving babies in my bed
Dropping little reels of tape to remind me that I'm alone
Playing movies in my head that make a porno feel like home
There's a burning in my pride, a nervous bleeding in my brain
An ounce of peace is all I want for you. Will you never call again?
And will you never say that you love me just to put it in my face?
And will you never try to reach me? It is I that wanted space

Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me so you can finally see what's good for you

I'm sober now for 3 whole months it's one accomplishment that you helped me with
The one thing that always tore us apart is the one thing I won't touch again
In a sick way I want to thank you for holding my head up late at night
While I was busy waging wars on myself, you were trying to stop the fight
You never doubted my warped opinions on things like suicidal hate
You made me compliment myself when it was way too hard to take
So I'll drive so fucking far away that I never cross your mind
And do whatever it takes in your heart to leave me behind

Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things I didn't do for you

Hate me in ways
Yeah ways hard to swallow
Hate me so you can finally see what's good for you

And with a sad heart I say bye to you and wave
Kicking shadows on the street for every mistake that I had made
And like a baby boy I never was a man
Until I saw your blue eyes crying and I held your face in my hand
And then I fell down yelling "make it go away!"
Just make a smile come back and shine just like it used to be
And then she whispered "How can you do this to me?"

Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things I didn't do for you

Hate me in ways
Yeah ways hard to swallow
Hate me so you can finally see what's good for you


Tradução:

Odeie-me (Blue October)


Eu tenho que bloquear pensamentos sobre você para não peder a cabeça
Eles rastejam em mim como uma barata a deixar ovos em minha cama
Deixo cair pequenas rodas de fita de vídeo para me lembrar que estou sozinho
A passar filmes na minha cabeça que fazem com que um pornô sinta-se em casa
Há um queimor em meu orgulho, uma hemorragia nervosa no meu cérebro
Um pouco de paz é tudo que eu quero para você. Você nunca mais vai ligar?
E você nunca mais vai dizer que me ama, só para me jogar na cara?
E você nunca mais tentará se aproximar de mim? Era eu que queria espaço

Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me para que eu finalmente veja o que é bom para você

Estou sóbrio agora desde há 3 meses e foi algo que você me ajudou a conquistar
A única coisa que nos separava é a coisa que nunca mais vou tocar
De um jeito doente eu quero agradecer-te por ter segurado minha cabeça levantada tão tarde da noite
Enquanto estava ocupado fazendo guerras contra mim mesmo, você estava a tentar parar o conflito
Você nunca duvidou das minhas opiniões torpes sobre coisas como o suicídio por ódio
Você fez com que eu me elogiasse quando tudo era demais para aguentar
Então eu vou dirigir para muito longe daqui que eu nunca mais estarei na sua mente
E faça o que for preciso no seu coração para que ele me deixe para trás

Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me por todas as coisas que não fiz por você

Odeie-me de jeitos
Jeitos difíceis de engolir
Odeie-me para que você finalmente veja o que é bom para você

E com um coração triste eu tenho que te dizer adeus e acenar
Chutando sombras na rua por cada erro que cometi
E como um bebê eu nunca fui um homem
Até que vi seus olhos azuis a chorar e segurei seu rosto em minha mão
E caí ao chão a gritar “faça isso desaparecer!”
Apenas faça com que um sorriso volte e brilhe como constumava ser
E então ela suspirou “Como podes fazer isso comigo?"

Odeie-me hoje
Odeie-me amanhã
Odeie-me por todas as coisas que não fiz por você

Odeie-me de jeitos
Jeitos difíceis de engolir
Odeie-me para que você finalmente veja o que é bom para você

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

História de superação das drogas

Recebi o texto abaixo como um link pelo twitter. Este link levou `a revista Cláudia, da Editora Abril, que publicou a história. Vasculhei o site da revista na tentativa de encontrar o número, volume e data de quando foi publicado, mas foi em vão. De qualquer forma, o texto é muito bom, sobre a possibilidade de superação das drogas.

Histórias de superação



Três mulheres contam como tiveram garra para vencer grandes dificuldades: drogas, prisão e depressão


Laís Mota e Heloisa Aline Oliveira


‘Correndo atrás dos sonhos Sempre gostei dos meus pés. Se eles já soubessem que caminho seguir, teriam me levado para longe quando minha mãe me abandonou, recém-nascida, na porta de uma instituição ligada à antiga Febem, em São Paulo. Era 1962. Fui deixada dentro de uma caixa de sapatos. Cresci com muitas crianças, mas sem nenhum amor. Na escola, só aprendi a alimentar o medo. Tenho medo de tudo: de carro, de gente, do escuro. Aos 10 anos, ainda estava na 1ª série. Sentia fome, não tinha vontade de estudar. Aos 18, fui encaminhada para meu primeiro emprego. Trabalhei cinco meses como empregada doméstica, mas a patroa não me pagava. Um dia em que ela não estava em casa, enchi várias malas com objetos de valor e fugi para o centro de São Paulo. Distribuí o que roubei para o povo que vivia na praça da República. “Comprei”, assim, lugar para morar.

Nas ruas, ninguém respeita as mulheres. Mendigos tentaram me estuprar, me bater. Para me proteger, simplesmente raspei os cabelos e me vesti de homem. Em pouco tempo virei líder de um bando de trombadinhas. Eles me chamavam de Tia Punk. Depois de um mês vagando pela cidade, descobri as drogas. No começo, sentia tanta fome e tanto frio que usava o que aparecesse: cola de sapateiro, benzina, gasolina... Com o tempo, essas drogas não me satisfaziam mais. Para mergulhar na cocaína, caí no crime.

Sustentar o vício era uma maratona: roubava comida, roupas, bolsas, ia até a boca, o ponto-de-venda, e trocava tudo por cocaína. Fui presa várias vezes, apanhei para entregar os traficantes, mas nunca falei nada. Eu só não conheço todas as delegacias de São Paulo porque minha especialidade era correr da polícia. Certo dia, em uma dessas “provas de longa distância”, parei em frente a uma loja de eletrodomésticos cheia de televisões na vitrine: em todas passava o filme CARRUAGENS DE FOGO, a história de dois corredores. Falei para os meninos do bando: vou correr assim. Um dos trombadinhas disse que, como eu era viciada em drogas, não conseguiria treinar. Respondi: “Se corro da polícia, também posso correr na rua”.

Com essa idéia na cabeça, “encomendei” equipamento para os amigos do bando, que assaltaram vários atletas. Aos 34 anos, com tênis, bermuda e camiseta roubados, comecei a treinar sozinha e fui parar na maratona de São Paulo. No final dos 42 quilômetros da prova, eu finalmente me encontrei. Era aquilo que eu queria. Mas, para correr, não podia me drogar: passei dias rolando na calçada, amargando a abstinência e as contusões.


Em 1998, eu morava sob as marquises próximas do Parque do Ibirapuera e passei a correr lá. Achava que era invisível para as pessoas da sociedade, mas alguém me enxergou. Era o dr. Fausto Cunha (na época, secretário de Esportes da Prefeitura). Ele percebeu que a corrida podia me recuperar. Me levou para um alojamento de atletas, me ofereceu abrigo, tratamento para conseguir deixar o vício, comida. Adoro ele e sua esposa, visito a casa deles, até Natal eu passo lá.

No início, o técnico Wanderley Oliveira não acreditou em mim. Disse que só ia me treinar se eu largasse todas as drogas, me cuidasse e me dedicasse muito. Sempre cumpri tudo o que prometi. O mais difícil era vencer o meu medo. Nunca aprendi a receber carinho, era arisca como um bicho. Por causa disso, ganhei da turma da corrida o apelido de Animal. E eu treinei como um animal. Corri contra tudo: contra o preconceito, a tristeza, o vício. Sofri demais com o rigor exigido pelo esporte, mas valeu a pena. Cada gota de suor na pista era a minha glória na linha de chegada.

Aos 40 anos, bati dois recordes brasileiros, nos 800 e 1,5 mil metros. Em 2006, venci a meia maratona de Santiago, no Chile; na Argentina, fui a terceira colocada na meia maratona de Buenos Aires. Percorri o Brasil inteiro graças a alguns patrocínios, à ajuda de tantos amigos e, principalmente, aos meus pés.

Sobrevivo por causa deles e das premiações. E ainda me perguntam se venci na vida! Comecei a vencer quando ninguém mais acreditava em mim e agora, aos 46 anos, não penso em parar. Tenho sonhos e pressa de seguir em frente. Ainda moro no abrigo da Prefeitura. Quero uma casinha para mim, mesmo que seja de um cômodo só, sem banheiro. Basta um canto para acomodar todas as minhas centenas de medalhas.

A primeira que ganhei pendurei no pescoço daquele amigo das ruas que dizia que eu não era capaz de correr sem ter uma arma apontada para mim. Provei a ele que eu posso. Para mim, não preciso provar mais nada.




ANA LUIZA DOS ANJOS GARCÊZ, 45 ANOS, ATLETA

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domingo, 8 de novembro de 2009

Drogas estimulantes

Produzem efeitos semelhantes aos do Sistema Nervoso simpático (adrenalina):

Aumentam a ­frequência cardíaca e pressão sanguínea, dilatam as pupilas e ­ aumentam a excitação comportamental, cortical e fisiológica.
Estrutura e estereoquímica semelhante a compostos endógenos.
Ex: Cocaína, Anfetaminas , Cafeína, Nicotina.

Cocaína




Extraída das folhas do arbusto Erythroxylon coca, que cresce nas montanhas do Peru, Colômbia e Bolívia.
Administração: mascada (só na América do Sul), inalada, fumada, iv.


Meia-vida: 15 a 90 minutos

Propriedades estimulantes e de anestésico local levaram ao seu uso terapêutico.

Integrou a composição de bebidas estimulantes.

Freud explorou a sua vertente psicotrópica (tornou-se ele próprio dependente).

Cerca de 11% da população dos EUA já experimentou cocaína







Modo de ação

Bloqueia a recaptação de Dopamina (DA), serotonina (5-HT) e noradrenalina (NE).
Age sobre os receptores 5-HT e mAch (especialmente 5HT3)
Bloqueia canais de sódio (razão pela qual tem propriedades anestésicas)
Efeitos na via mesolímbica e córtex frontal
Adictiva:
Dependência (ciclos de 10-12 dias)

Consequências

Aumento do consume de precursor de dopamina – leva a depressão de células dopaminérgicas. A dopamina é geralmente reabsorvida e re-armazenada. O uso de cocaína faz com que aumente a produção de novo deste neurotransmissor.

Efeitos subjectivos

Após uma dose
Euforia, aumento da energia, auto-confiança e líbido
Maior sociabilidade, vigilância
(fumada, 5-10 minutos; inalada, 15-30 minutos)

Uso crônico
Irritabilidade, exaustão, diminuição da líbido,  delírios, discurso incoerente

Efeitos fisiológicos

Alívio da fadiga
Aumento da­ frequência respiratória, frequência cardíaca e­ pressão sanguínea (vasoconstrição)
­ Dilatação da pupila
Anestesia local

Consequências eventuais:

Risco de acidente vascular cerebral (AVC)
­ Risco de infarto
­ Convulsões (estimulação SNC)
­ Perfuração do septo nasal
­ Risco de infecções pelo uso da via endovenosa

Efeitos comportamentais

Ativação locomotora (em doses baixas: via núcleo accumbens, receptores D1 e D2)
Em doses altas: estereotipias (vias não dopaminérgicas)

Efeitos cognitivos

Pior desempenho de tarefas de destreza manual, resolução de problemas, memória verbal e não-verbal
Efeitos relacionados com quantidade de cocaína e tempo desde a última toma

Doses elevadas - Problemas clínicos:

Toxicidade cardíaca
Toxicidade vascular
Desordens comportamentais e psiquiátricas:
Tolerância (associada a disforia)
Progresso para psicose paranóide

Causas de morte:

Convulsões
AVC (hemorrágico ou isquémico)
Ataque cardíaco


Anfetaminas



Compostos sintéticos
Administração: oral, inalação, fumada (metanfetamina), ou EV
Metabolismo: hepático, lento
Meia-vida: 7 a 30 horas
Sintetizadas no sec. XIX para terapia da asma (com o objetivo de substituir a efedrina).
Pico de consumo nos anos 70
Substituída por cocaína e metanfetamina

Agonista indirecto do sistema de catecolaminas do estriado
­ Libertação de catecolaminas, bloqueiam a recaptação de DA, 5-HT e NE e inibem a acção da Monoamino oxidase (MAO)
Entra no neurónio por difusão na membrana.
Aumenta o consumo de glicose no cérebro
Obriga a liberação de dopamina armazenada nas vesículas

Efeitos na via mesolímbica: Dependência (sintomas psico-somáticos)

Efeitos subjectivos

Após uma dose
­ Vigilância, excitação, aumento da auto-confiança, aborrecimento, diminuição da fadiga

Uso crónico
Irritabilidade , sensibilização psico-motora, tolerância aos efeitos anorexiantes, psicose da anfetamina

Efeitos fisiológicos

Aumento da frequência respiratória, frequência cardíaca, pressão sanguínea, taxa metabólica e consumo de oxigênio. Melhora dos desempenhos atléticos (dopante).
Reduz (ou encurta) o início e duração do sono (principalmente fase REM)

­ Consequências eventuais

Maior risco de AVC, infarto cardíaco, convulsões (estimulação SNC) e de infecções via endovenosa

Efeitos comportamentais

Ativação locomotora
Estereotipias (ativação extra-piramidal, com inibição da MAO, doses maiores). Aumentam o sinal em redes neuroniais do estriado.

Efeitos cognitivos

Melhor desempenho de tarefas psicomotoras repetitivas

Uso crônico: Efeitos da abstinência, letargia, diminuição da capacidade de concentração, ansiedade, hipersonolência, desejo de consumir a droga. Proporcionais à duração e grau de uso.

Doses elevadas - Problemas clínicos:

Toxicidade cardíaca
Toxicidade nigro-estriatal (DA) e 5-HT
Desordens comportamentais e psiquiátricas:
Tolerância (associada a disforia)
Progresso para psicose paranóide.

Causas de morte:


Taquicardia
Hipertensão
Convulsões
AVC, ruptura de aneurisma arterial (EV)
Rabdomiólise
Falência renal
Coma

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