sexta-feira, 3 de junho de 2011

Dependência emocional e codependência

Dependência é normal para crianças e esperada em pessoas doentes. Não é saudável em adultos!

Você consegue reconhecer dependência? Pessoas dependentes geralmente tendem a fugir de responsabilidades, reclamam constantemente, culpam os outros e mentem para evitar as consequências de seus atos. Pessoas dependentes não desenvolvem as qualidades e habilidades essenciais para suportar uma vida adulta saudável. Eles manipulam ou demandam dos outros que façam o que não conseguem fazer por si mesmos. 

Você é dependente?

Se você define amor como um comportamento que satisfaz suas necessidades é provável que sim. Desta forma, suas expressões de amor exigem que outros ajam nas suas necessidades, de forma exigente. Se você é um dependente emocional você acredita que sua segurança emocional e seu valor (autoestima) requer a presença constante e reconfortante de outra pessoa. 

Você se preocupa intensamente com outra pessoa? Você precisa estar perto daquela pessoa? Você se sente perdido quando não não consegue estar perto? Você precisa do amor exclusivo e absoluto de alguém e só procura sua compania? Você vê os amigos e familiares desta pessoa como competição? Você é ciumento? Você só consegue se decidir ou agir se a pessoa em questão aprovar?

O que vamos discutir aqui não é a dependência infantil, normal como dito acima, ou a dependência dos doentes ou dos idosos. Neste post discutiremos a dependencia emocional vista em adultos, especialmente nos relacionamentos amorosos. Mas lembre-se: relacionamentos codependentes podem acontecer no seio da família, no ambiente de trabalho, entre amigos, etc...

Abaixo há uma pequena lista de características de Amor versus Amor Tóxico ou dependente (resumida do livro de M. Beattie & T. Gorski):

  1. Amor - desenvolvimento do self (identidade) é a prioridade
  2. Amor Tóxico - obsessão com o relacionamento
  3. Amor - espaço para crescer, expandir, desejo que o outro cresça também
  4. Amor tóxico - Segurança, conforto na mesmisse; intensidade da necessidade do outro visto como prova de amor (enquanto que na verdade pode ser apenas medo, insegurança, solidão)
  5. Amor - Interesses separados: outros amigos, mantém relacionamentos significativos com outros
  6. Amor tóxico - envolvimento total, vida social limitada, negligencia velhos amigos e interesses
  7. Amor - encoraja um ao outro a expandir, há segurança em seu próprio valor
  8. Amor tóxico - preocupação com o comportamento do outro, medo da mudança
  9. Amor - confiança apropriada (confia no parceiro e em como ele age)
  10. Amor tóxico - ciúmes, possessividade, medo de competição, protege a "demanda"
  11. Amor - compromisso, negociação, tomam a liderança em turnos. Resolvem problemas juntos
  12. Amor tóxico - brigas pelo poder, culpam o outro, manipulação passivo-agressiva
  13. Amor - acolhem a individualidade do outro
  14. Amor tóxico - tenta mudar o outro para que se pareça com sua própria imagem
  15. Amor - O relacionamento é focado na realidade
  16. Amor tóxico - relacionamento baseado na fantasia e no evitamento do desprazer
  17. Amor - Os parceiros cuidam de si mesmo, o estado emocional não depende do humor do outro
  18. Amor tóxico - expectativa de que o parceiro o curará e o resgatará
  19. Amor - Desligamento amoroso (preocupação saudável com o parceiro, enquanto o permite ser individual)
  20. Amor tóxico - fusão (obcecado com os sentimentos e problemas do parceiro)
  21. Amor - o sexo é de livre escolha para demonstrar crescimento, carinho e amizade
  22. Amor tóxico - pressão sobre a área sexual devido a insegurança, medo e necessidade de gratificação imediata
  23. Amor - habilidade para gostar de estar sozinho
  24. Amor tóxico - incapaz de suportar separação, pessoa grudenta
  25. Amor - ciclos de conforto e contentamento
  26. Amor tóxico - cliclos de dor e desespero
Analise as mensagens sobre relacionamentos com as quais você é bombardeado diariamente: relacionamentos na TV, nas novelas, nos filmes. Preste atenção crítica a letras de músicas e canções de amor. Nós diariamente somos bombardeados com modelos de dependência emocional!

Afinal, o que é codependência ou dependência emocional?
 
A codependência ou dependência emocional é uma tendência de se comportar passivamente em excesso, que leva a impacto negativo nos relacionamentos e na qualidade de vida de um indivíduo. É geralmente vista como colocando as necessidades do indivíduo abaixo das necessidades dos outros e ficar preocupado em excesso com outros.
Historicamente o conceito foi retirado dos Alcoólicos Anônimos (AA), que mostrava que o problema não era só do dependente químico, mas também dos amigos e familiares que constituem a rede social do alcoolista (já escrevi um post sobre isso aqui).
 
Características da codependência
 
Na codependência os comportamentos, pensamentos e sentimentos vão além do que é normal para cuidados e auto-sacrifício. Numa relação parental, por exemplo, a mãe pode passar a sacrificar toda sua vida e relacionamento com pai (inclusive sexual) em prol de cuidar 100% do tempo da criança. Isso é ruim para a criança também. Em geral, um pai que cuida de si primeiro de forma saudável será um melhor cuidador do que um pai codependente que pode até mesmo causar danos aos filhos.
 
Os Co-dependentes Anônimos oferences os seguintes padrões e características como ferramenta para auxiliá-lo em uma autoavaliação:
 
 
Padrões de Negação:
  • Tenho dificuldade em identificar o que sinto.
  • Eu minimizo,altero ou nego como realmente me sinto.
  • Percebo a mim mesmo como completamente sem egoísmo e dedicado ao bem estar dos outros.
  • Falta-me empatia pelos sentimentos e necessidades de outros.
  • Eu rotulo outros com meus traços negativos.
  • Cuido de mim mesmo sem qualquer ajuda de outros.
  • Mascaro minha dor de várias formas como raiva, depressão e isolamento.
  • Eu expresso negatividade ou agressão de forma indireta e passiva.
  • Não reconheço que outros pelos quais me sinto atraído possam não estar disponíveis.
Padrões de baixa autoestima:
  • Tenho dificuldades em tomar decisões.
  • Julgo tudo o que penso ou digo duramente, como se nunca fosse bom o suficiente.
  • Fico envergonhado ao receber reconhecimentos, elogios ou presentes.
  • Nunca peço aos outros que reconheçam meus desejos ou necessidades.
  • Valorizo mais a opinião dos outros do que a minha sobre o que penso, sinto e como ajo.
  • Não me vejo como alguém que mereça amor ou atenção.
  • Constantmente busco reconhecimento que acho que mereça.
  • Tenho dificuldades em admitir que errei.
  • Tenho que parecer correto aos olhos dos outros e até minto para que parecer melhor.
  • Acho-me superior aos outros.
  • Preciso de outros para me sentir seguro.
  • Tenho dificuldades em começar atividades, completar prazos e projetos.
  • Tenho dificuldades em estabelecer prioridades mais saudáveis.
Padrões de evitamento:
  • Ajo de forma convidativa a outros para me rejeitar.
  • Julfo duramente o que os outros pensam, sentem, falam e fazem.
  • Evito intimidade emocional, física ou sexual como forma de me distanciar.
  • Permito que minhas dependências a pessoas, lugares e coisas me distraiam de atingir real intimidade nos relacionamentos.
  • Uso comunicação indireta e evasiva para evitar conlitos ou confrontações.
  • Atraio as pessoas, mas quando elas estão próximas, eu as evito.
  • Acredito que demostrações de emoção são sinais de fraqueza.
Padrões de cumplicidade:
 Eu comprometo meus próprios valores e integridade para evitar rejeição por parte de outros.
  • Eu sou muito sensível a como os outros se sentem e sinto o mesmo.
  • Sou extremamente leal, permanecendo em situações danosas por muito tempo.
  • Eu valorizo mais a opinião dos outros do que a minha própria e tenho medo de expressar opiniões e sentimentos diferentes.
  • Deixo de lado meus próprios interesses e hobbies para fazer o que os outros querem.
  • Aceito sexo ou atenção sexual quando procuro amor.
  • Tenho medo de expressar minhas opiniões e crenças quando diferentes do que os outros pensam.
  • Tomo decisões sem pensar nas consequências.
Padrões de controle:
  • Acredito que a maioria das pessoas é incapaz de cuidar de si mesmas.
  • Tento convenceros outros sobre o que "deveriam" sentir ou pensar.
  • Fico ressentido quando outros não me deixam ajudá-los.
  • Ofereço conselhos abertamente, sem ter sido convidado a isso.
  • Gasto com presentes luxuosos e favores naqueles que me são importantes.
  • Utilizo o sexo para ganhar aprovação e aceitação dos outros.
  • Necessito que "precisem" de mim para me relacionar com outros.
  • Exijo que minhas necessidades sejam acolhidas pelos outros.
  • Uso meu charme e carisma para convencer os outros de minha capacidade de compaixão e cuidado.
  • Uso culpa e vergonha para explorar emocionalmente os outros.
  • Recuso-me a cooperar, comprometer ou negociar.
  • Adoto uma atitude de indiferença, desesperança, autoridade ou raiva para manipular resultados.
  • Finjo concordar com outros para conseguir o que quero.

 

Recuperação

Existem várias formas de tratamento da dependência emocional. Muitos optam por psicoterapia e algumas pessoas usam medicamentos psiquiátricos quando o quadro é associado à depressão.
Um dos principais aspectos da intervenção familiar, feita na psicoterapia, é a identificação de padrões de codependência na família. Também existem diversos livros de autoajuda no mercado que lidam com a dependência emocional.

Qual o problema da dependência emocional a longo prazo?

Padrões mal resolvidos de codependência podem levar a problemas como alcoolismo, dependência química, transtornos alimentares, dependência sexual e outros comportamentos autodestrutivos.Pessoas com padrões de dependência tem maior probabilidade de serem abusadas por indivíduos agressivos (bullying), de ficar em empregos insatisfatórios e estressantes, e de permanecer em relacionamentos abusivos. Além disso, estas pessoas procuram menos ajuda médica quando necessária, são preteridas nas promoções no trabalho e ganham menos quando comparadas a outros indivíduos.

Referências

  • "Cluster C Personality Disorders," in: Diagnostical and Statistical Manual of Mental Disorders DSM-IV, Washington: American Psychiatric Association, 4th ed. 1994, ISBN 0-89042-062-9, 662-673.
  • "Codependence," in: Benjamin J. Sadock & Virginia A. Sadock (eds), Kaplan & Sadock's Comprehensive Textbook of Psychiatry on CD, Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 7th ed. 2000, ISBN 0-7817-2141-5, 20703-20707.
  • Anonymous Co-Dependents Anonymous, Phoenix: Co-Dependents Anonymous, 1st ed. 1999, ISBN 0-9647105-0-1, 3-6.
  • M Beattie. Beyond Codependency
  • T Gorski. Getting Love Right
  • Wikipedia - Codependency
Foto: http://sasstrology.com/2010/07/codependency-neptune-and-the-tangle-of-human-relationships.html
http://www.gizmodiva.com/fashion/codependency_suit_to_make_couples_feel_stifled.php

Marcadores: , ,

terça-feira, 9 de março de 2010

Receita para criar psicopatas III

Como escrevi anteriormente em "Receita para criar psicopatas", este post é sobre o desenvolvimento de um crime brutal e todas as oportunidades perdidas para intervenção. Antes de entrar no mérito do crime, vou rapidamente dar uma passada pela teoria psicanalítica da psicopatia.

Muitos já torceram o nariz ao ler só o primeiro parágrafo. Explico: a teoria psicanalítica já teve seu lugar na Psiquiatria, mas como não tem validação científica (i.e., não existe um experimento que prove/disprove suas teorias pois elas são de certa forma únicas e pessoais e hoje vivemos a psiquiatria da generalização, da estatística das massas) ela tem sido progressivamente deixada de lado. Longe de levantar a bandeira de que toda a teoria psicanalítica é válida em todas as situações, acredito que é um instrumento afiado do arsenal psiquiátrico já que fornece hipóteses e teorias sobre o desenvolvimento humano.

Acredito que quase todo mundo pelo menos ouviu falar do Complexo de Édipo. De forma muito, mas muito simplista, vou explicar: O Complexo de Édipo ocorre mais ou menos aos 5 anos de idade (seja para meninos ou meninas, mas vou falar sobre os meninos pois é mais fácil de entender). Quando o bebê nasce, mãe e bebê se tornam um binômio, praticamente inseparáveis e o pai fica meio de lado (já notaram que todas as visitas são para mãe e bebê, todos os presentes?). Esta situação perdura até mais ou menos os 5 anos de idade da criança quando o pai cansa deste amor platônico do menino pela mãe e finalmente diz: "Chega! Tua cama é aquela, você não dorme aqui e a mulher é minha e não sua!" (Claro que em sentido figurado). O papel do pai é extremamente importante no Édipo pois ele é o portador da Lei, ou seja: ele traz a censura, o que é certo e errado e regras para a criança seguir.

Se tudo correr bem, a criança entende que o pai é maior que ela e teme pela sua integridade, obedecendo-o e indo para sua cama, resolvendo seu amor pela mãe e crescendo de forma saudável. Esse é o resultado neurótico, o resultado esperado do conflito edipiano (que acontece para a grande maioria de nós). Segundo as teorias psicanalíticas, pacientes psicóticos nem mesmo chegam a esta etapa e vivem em um estado de fusão com a mãe (o binômio nunca foi quebrado) e daí sua dificuldade em estabelecer sua identidade e limites.

Mas o que me interessa aqui hoje nesta teoria é a formação do psicopata:
Na teoria psicanalítica, o psicopata também passa pelo complexo de Édipo. Ele também quer a mãe só para si e nutre amor por ela (como nos outros casos). O pai chega então para trazer a lei: "vá para a tua cama, etc, etc.". A criança entende que o pai é a lei, reconhece a existência da lei e o obedece. Até aqui tudo bem. Entretanto, o psicopata tem uma  "mãe sedutora", que assim que o pai vira as costas vai até o quarto da criança e a busca de volta a sua cama a dizer "o pai saiu, não está em casa... o que ele não vê não lhe magoa" (claro que tudo aqui em sentido figurado!). Ou seja: na formação desta criança ela aprende que existe a lei, aprende que existem represálias se a lei for descumprida, mas aprende também que existem recompensas pelo descumprimento da lei, que ela pode fazer o que quiser quando o pai (Lei/sociedade) não estiver olhando.

E isso é muito importante: um psicopata não é um psicótico que obedece cegamente às alucinações e mata alguém porque acredita cegamente no que as alucinações lhes dizem. Um psicopata é uma pessoa aparentemente normal, que sabe o que é certo e errado mas sabe que o descumprimento das leis leva a gratificações. Uma pessoa de base neurótica (a maioria de nós), se faz algo de errado, não dorme à noite. Pode ser que durma no começo, mas em 20 anos a culpa chega e ou ela encontra religião, ou muda para Índia para ser Hindu ou desenvolve alguns transtornos mentais, etc... Um psicopata não tem culpa. Após cometer os crimes mais atrozes, ele dorme perfeitamente feliz porque a culpa, que é aprendida no Complexo de Édipo (e daí a importância do pai) foi lhe negada. E sem culpa, as leis de nada valhem.

Não pense que um psicopata é apenas um serial killer. Existem diversos graus de psicopatia e muito provavelmente você conhece ou trabalha com um. Os graus mais leves vemos em empresas, por exemplo, nas quais um funcionário faz o que for possível para subir na vida, pise em quem pisar, cause as demissões quer for para atingir seus objetivos. Os graus mais severos conhecemos pelos filmes de Hollywood.

O que quero que o leitor entenda, é que isso tudo são TEORIAS e não verdades absolutas. Já há muito que a psiquiatria abandonou a velha noção de que tudo são culpas dos pais. Esta explicação é uma alegoria para que o leitor identifique os passos de negação e punição da história que vou descrever a seguir (e também possa entender melhor o post "Receita para criar psicopatas I")


O assassinato de James Bulger

Os leitores mais velhos provavelmente se lembrarão deste crime, pois lembro de tê-lo visto no Jornal Nacional em 1993. O assassinato de James Bulger voltou à midia inglesa recentemente e encontro paralelos com outro crime brasileiro que descreverei na conclusão.

James Bulger
James Bulger era um menino inglês de 2 anos que estava com sua mãe em um shopping center e desapareceu em 12 de novembro de 1993. Denise, sua mãe, notou que James desaparecera de dentro de uma loja: ele havia saído por conta própria e foi visto por dois garotos, que se aproximaram dele, conversaram com ele e o levaram pela mão para fora do shopping. Quando as autoridades revisaram os filmes das câmeras de segurança, observaram duas crianças de 10 anos, Jon Venables e Robert Thompson, que roubavam vários itens como um boneco troll, baterias e uma lata de tinta azul, que foram encontrados posteriormente com o corpo de James Bulger. Além disso, os dois observavam várias crianças e posteriormente admitiram que naquele dia estavam procurando uma criança para raptar e jogar na frente de um carro.

Os garotos andaram quatro kilometros com James, ao longo de um canal, parando apenas para espancá-lo no rosto e cabeça. Durante sua caminhada, os garotos foram vistos por 38 pessoas, que notaram claramente que James estava a sofrer, mas os meninos mentiram que ele era seu irmão e o estavam levando para casa. Eventualmente eles chegaram a uma linha de trem onde atacaram o menino: eles cobriram seu rosto de tinta azul, chutaram-no, jogaram tijolos, pedras e uma barra de ferro de 10kg em sua cabeça. Colocaram as baterias em sua boca e ânus e o deixaram. O patologista do caso disse no tribunal que James sofreu tantas fraturas e feridas, que era impossível identificar qual delas causou sua morte.
Antes de partir, os meninos deitaram o corpo de Bulger sobre a linha do trem e colocaram sua cabeça para baixo com pesos, na esperança de que um trem faria seu corpo desaparecer ou que a morte parecesse acidental. O corpo de James foi descoberto em 14 de Fevereiro.

Rapidamente a polícia identificou os garotos com ajuda das imagens do circuito interno do shopping. Venables e Thompson foram presos e como o crime causou comoção no país, a polícia divulgou as fotos dos dois. A divulgação causou choque na imprensa mundial, devido à tenra idade dos criminosos. Eles foram condenados pelo assassinato em 24 de novembro de 1993, tornando-se os assassinos mais jovens da história inglesa.

Os dois foram levados a um centro para criminosos juvenis e lá permaneceram até fazerem 18 anos. Embora no tribunal eles tenham sido condenados a uma pena perpétua (lifetime sentence), eles apelaram ao Tribunal Europeu e foram soltos, com pena suspensa, quando completaram a maioridade em 2002. Eles cumpriram 8 anos no centro juvenil e nunca passaram um dia em uma prisão para adultos. Para os que vivem no Brasil, pena suspensa na Europa ocorre quando a pessoa cumpre em regime aberto, mas fica proibida de certas atitudes e tem sempre de dar notícias a oficiais de justiça encarregados de seu caso.
Quando os dois foram soltos houve comoção novamente no Reino Unido, devido à gravidade e requintes de crueldade do crime. Para garantir a segurança do par, o governo gastou cerca de 1 milhão de libras para criar nova identidade, cartão de finanças (ou CPF), novos passaportes, garantia de emprego por toda vida para evitar que eles recaíssem na vida de crimes, eles foram impedidos de se encontrarem ou de voltarem à cidade onde cometeram o crime. Os jornais trazem diversos depoimentos dos oficiais que trabalharam com a dupla e dizem que nunca, nenhum dos dois, mostrou qualquer ressentimento ou culpa pelo ocorrido.
O caso voltou à mídia pois Jon Venables (que era visto como o menos cruel da dupla, dependente do outro menino) foi preso na semana passada acusado de possuir pornografia infantil grau 4 (numa escala de 1 a 5 onde 5 é o mais grave). A população está revoltada e exige conhecer sua nova identidade e clama que o governo foi leniente ao libertá-los tão cedo, que um crime tão grave deveria ter sido obrigatoriamente cumprido em prisão fechada.


A infância de Jon Venables

Em 1991, quando Jon tinha 7 anos, seus professores começaram a notar seu comportamento de busca de atenção: ele balançava sua carteira escolar, enquanto segurava na mesa, gemendo e fazendo barulhos estranhos. A professora o mudou para a frente da sala, onde poderia mantê-lo sobre vigilância, mas ele passou a jogar no chão objetos da sua mesa. Até então, a violência em Jon era auto-infligida: ele batia sua cabeça contra móveis, paredes e jogava-se no chão. Cortava-se com tesouras e rasgava suas roupas por nada. Às vezes ele destruia trabalhos de arte de seus coleguinhas e jogava objetos neles. A professora escreveu em suas anotações que seu comportamento tornava-se cada vez mais violento: certa vez ele aproximou-se por trás de outra criança e tentou sufocá-la com uma régua. Foram necessários dois adultos para separá-lo do outro menino e logo após ele foi tranferido para outra escola.

Em casa, o pai estava quase sempre desempregado. Jon era filho do meio e sentia-se ignorado, espremido entre duas crianças com problemas de desenvolvimento, que precisavam de cuidados especiais. Seus pais tinham um relacionamento tumultuado, sempre terminando e voltando. A casa estava sempre em pandemônio. Ambos os pais tinham história de depressão crônica e a mãe de Jon era dada a ataques histéricos e abusava física e verbalmente dele. Quando muito estressada, a mãe o mandava para a casa do pai, incapaz de lidar com o filho. Desde os 7 anos, os sinais de comportamento antissocial já estavam presentes: ele odiava as crianças da vizinhança, que tiravam sarro dele e de seus irmãos problemáticos. Além disso Jon apresentava estrabismo, o que lhe tornava um alvo fácil para as gozações das outras crianças.

Devido aos seus problemas na escola, Jon foi reprovado e foi então que conheceu outro menino que também havia sido reprovado: Robert Thompson. Assim que eles se conheceram, de criança que sofria com gozações, Jon passou a ser o bully. Eles passaram também a faltar às aulas e andar pela cidade. Os professores notaram que eles traziam à tona o que havia de pior na personalidade do outro. Jon era bagunceiro e violento e Robert era quieto, mas mentiroso e manipulador.

desenho de Venables sobre o filme Halloween

Quando passava o tempo na casa do pai, Jon assistia muitos filmes de terror que seu pai alugava. Jon gostava de filmes de Karate e fez desenhos sobre o filme Halloween. Entretanto, um filme específico parece ter influenciado mais que os outros: Brinquedo Assassino 3 (no Brasil ) ou Chucky 3: O Boneco Diabólico (em Portugal) (Child's Play 3)

Neste filme, a alma de um serial killer habita um boneco chamado Chucky. O boneco (mais ou menos do tamanho de James Bulger) mata diversas pessoas mas no final é morto em uma montanha russa/trem fantasma. Enquanto os heróis tentam matar o boneco, Chucky é desmembrado e tem tinta azul jogada em seu rosto. No dia do rapto e assassinato em questão, foi Jon que levou James pela mão e ele parecia ser o dominante, mentindo para os adultos que tentaram intervir. Ao que parece , eles viam James como um boneco (e o fato de terem colocado baterias em seu ânus parece dar crédito a esta teoria). É comum em análise de crimes observar uma desumanização da vítima. Encará-la como um boneco é uma forma de objetificá-la e torná-la apenas um veículo para o prazer do perpretador, ao invés de reconhecê-la como um ser humano com nome, desejos, sonhos e família.

A forma como a justiça lidou com o crime e o comportamento de Jon Venables durante sua estadia no Centro Juvenil só agora vieram completamente à tona. E vejo paralelos com outro crime chocante, este ocorrido no Brasil.

Em 2007, João Hélio, de 6 anos, estava com a mãe e a irmã em um carro quando bandidos os cercaram para roubar o veículo. A mãe e a irmã saíram do carro, mas João Hélio ficou preso pelo cinto de segurança do lado de fora. Ezequiel Toledo de Lima, então com 16 anos, viu que o menino estava preso mas riu-se. Os bandidos arrancaram com o carro e dirigiram por 5 quilômetros, com João Hélio sendo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro. Diversas pessoas interviram e disseram que havia uma criança pendurada do lado de fora do carro, mas Ezequiel ria-se e respondia que era apenas um boneco de Judas (novamente o boneco).
Todos foram presos e condenados. Ezequiel cumpriu 3 anos de medida sócio-educativa e no momento a justiça brasileira está a decidir se ele continua em regime semi-aberto ou se deve receber nova identidade para protegê-lo de represálias através do Programa de Proteção às Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM). A sociedade brasileira está espantada com a leniência da justiça. Ao que parece, Ezequiel ainda participou de 2 rebeliões enquanto esteve detido, feriu um funcionário do centro e matou um policial.

Se os meninos do caso Bulger tinham apenas 10 anos e um deles mesmo assim reincidiu (gravemente), que espera a justiça brasileira no caso de Ezequiel? Como lidar com criminosos que apresentam psicopatia grave?


Referência:
True Crime Library http://www.trutv.com/library/crime/notorious_murders/young/bulger/8.html


Fotos:
Complexo de Édipo: http://morandonaamerica.com/wp-content/uploads/2009/09/Oedipuspaint.jpg
Hospital Psiquiátrico: esse cartoon é meu mesmo. Eu o vi em algum lugar (uma palestra talvez) e não consegui o achar no google, então desenhei por mim mesma. Peço desculpas aos artistas se vos ofendi.
James Bulger: http://en.wikipedia.org/wiki/File:James_bulger.jpg
Jon Venables e Robert Thompson: http://www.theage.com.au/ffximage/2004/11/28/29n_ven,0.jpg
http://www.dailymail.co.uk/news/article-1256190/Revealed-The-horror-drawing-Jon-Venables-weeks-killed-James-Bulger.html
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Childsplay3.jpg

Marcadores: , , , , ,

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Receita para criar psicopatas II

Ontem mais uma vez o transtorno de personalidade antissocial esteve presente na comunicação social inglesa. A exemplo de um post no qual detalhei o crime de duas crianças de 10 e 11 anos, mais uma vez um adolescente foi condenado por um crime brutal.

Ontem um adolescente de 17 anos foi condenado a 17 anos de prisão pelo assassinato de outro adolescente, esfaqueado enquanto se encontrava do lado de fora de um clube da juventude em Liverpool.
O crime não teve qualquer motivo. Os dois nem mesmo se conheciam. Ao esfaquear Joseph Lappin de 16 anos, James Moore perguntou "então, como é ser esfaqueado?"

Durante o curso do caso, o tribunal ouviu que Lappin recebeu 45 ASBOS (Anstissocial Behaviour Order or Ordens contra comportamento antissocial). Estas ordens servem para proibir o retorno a certas áreas ou lojas, ao restringir certos comportamentos públicos (como xingamentos ou o uso de bebidas alcoólicas). São ordens da esfera civil  mas o descumprimento pode render 5 anos de prisão. As Asbos são emitidas em resposta a "condutas que causam ou provavelmente causarão dano, assédio, alarme ou estresse, a uma ou mais pessoas que não vivem na mesma residência que o indivíduo que a recebee emitidas onde ASBOs são necessárias para proteger pessoas relevantes de mais atos antissociais praticados pelo réu".

Aparentemente o sistema falhou. Em sua curta vida, Moore recebeu 45 ASBOs mas sempre recebeu leniência das cortes inglesas por cuidar de um irmão mais novo com paralisia cerebral. Seus pais, ambos usuários de drogas, com o pai estando em uma penitenciária por assalto a mão armada.(pena de 10 anos) não ofereceram modelos parentais positivos. Desde o início da adolescência Moore aterrorizava os vizinhos, cometendo crimes de forma mensal e quebrando cada uma das ordens impostas pelas cortes.

Referências:
 
Crime and Disorder Act 1998, CHAPTER 37. http://www.opsi.gov.uk/acts/acts1998/ukpga_19980037_en_1
Teenager jailed for murder of army cadet outside youth clubJames Moore must serve at least 17 years for stabbing 16-year-old Joseph Lappin in the heart in Liverpool. http://www.guardian.co.uk/uk/2010/feb/02/james-moore-joseph-lappin-murder
 
Foto: http://www.werkkrew.com/uploads/antisocial.jpg

Marcadores: , , ,

sábado, 23 de janeiro de 2010

Receita para criar psicopatas

A população do Reino Unido está chocada com um caso que esteve em julgamento neste mês e que foi sentenciado ontem.

O crime ocorreu no segundo semestre do ano passado e os detalhes são extremamente perturbadores:

Dois irmãos, de 10 e 11 anos, torturaram, espancaram e humiliaram dois outros meninos da mesma idade. Os atos de selvageria e depravação perpretados por estas crianças extrapolaram os limites da compreensão. O crime ocorreu em Edlington, sul de Yorkshire (Inglaterra). Durante 90 minutos dois meninos foram espancados com galhos e pedras, cortados com arame farmado, receberam socos, pontapés, tiveram suas partes íntimas pisoteadas, entre outros. Durante a sessão de tortura, um dos irmãos perguntou a suas vítimas : "Você já está morrendo?"

As duas vítimas estavam andando de bicicleta quando foram vistos pelos irmãos, que praticaram o ataque como se fossem "um time". Em uma rotina praticada anteriormente com uma outra criança (que também ficou traumatizada), eles enganaram os garotos, que conheciam da vizinhaça, ao dizer que queriam mostrar-lhes uma raposa morta em uma ravina próxima ao bairro.

Ao chegarem à ravina, os garotos foram avisados de que seriam mortos e também ouviram ameaças constantes às suas famílias. O menino mais velho foi estrangulado diversas vezes. Ambos foram obrigados a comer espinhos e barro e depois tiveram seus pescoços cortados com cacos de vidro de garrafas de cerveja. A promotoria demonstrou que o irmão mais velho focou-se em torturar o menino de 11 anos e o mais novo o de 9 anos.

O irmão mais novo "pulou" no rosto de sua vítima e os dois tiveram seus genitais pisoteados. Tijolos e pedras foram jogados em suas cabeças. Alguns, eram pesados demais para que crianças os atirassem sozinhas e foram soltos na cabeça das vítimas ao invés de arremessados (o mais pesado: 12 quilos). Um laço de metal foi utilizado para estrangular o menino mais velho e arame farpado para cortar a língua do mais novo, que teve seu braço machucado com um pedaço de pau e um cigarro apagado na ferida.

Durante os 90 minutos de tortura, os meninos de 9 e 11 anos foram forçados a:
  • tentar matar o outro
  • despirem-se e forçados a realizar atos sexuais
  • tiveram os cílios e orelhas queimados
  • estrangulados com um varal
  • tiveram pias e objetos pesados "arremessados" contra suas cabeças
  • forçados a comer espinhos e sujeira
  • foram colocados sob um lençol de plástico ao qual foi ateado fogo.
Um dos irmãos lembrou-se de que era hora de encontrarem-se com seu pai, ao qual o outro respondeu: "Deixe-me só matá-los para que não contem nada". Ao final, as vítimas só sobreviveram porque os irmãos estavam com dores nos braços após a sessão de tortura e resolveram ir embora.

Quando os irmãos saíram, a criança mais nova chamou o de 11 anos para fugirem ao qual ele respondeu "Vai você. Eu não consigo me mexer ou ver. Eu vou morrer aqui.". O menino de 9 anos então saiu da ravina e perambulou pelas ruas de seu bairro, coberto de sangue. Um vizinho riu-se de ver como ele estava coberto de "tinta vermelha", mas ao aproximar-se, viu a extensão dos ferimentos. O menino apenas disse: "Eles nos bateram com galhos e pedras" e seus olhos começaram a rolar quando entrou em choque. Os vizinhos organizaram-se e encontraram o menino mais velho na ravina. Sua temperatura corporal era 28.5C (sinal de grave hipotermia). Ambos sobreviveram após semanas em tratamento intensivo no hospital da localidade, mas com marcas indeléveis para o resto de suas vidas.


Receita para criar psicopatas em casa

Durante a investigação do caso, foi descoberto o estilo de vida da família dos dois irmãos. A família já estava no radar dos serviços sociais há 14 anos: Pai, mãe e sete filhos. Não havia regras, tabus ou restriçoes. Aos 9 anos, ambos fumavam maconha (cannabis) dentro de casa e bebiam cerveja e cidra.

As duas crianças cresceram assistindo filmes de terror sadísticos e dvds pornográficos, de onde provavelmente tiraram inspiração para a sessão de tortura.

Não havia ninguém para impedir que este fato acontecesse. O pai passava seu tempo a plantar maconha no quintal, sempre com uma lata de cerveja nas mãos. A mãe, consumidora compulsiva de maconha, quando confrontada por policiais sobre o que seus filhos fizeram, respondeu "eu não tenho nada a ver com eles".
O pai é um alcoólico violento. Ele passava o tempo intoxicado, a abusar fisicamente dos filhos e da esposa, chegando a cortá-la com uma faca na frente dos meninos.

A família era conhecida na vizinhança: a casa deles era a única com um carro abandonado e uma geladeira (frigorífico) aos pedaços no jardim da frente. A placa da frente da casa dizia, numa tradução minha: "Cuidado, criança brava" (Beware of the Kids). A familia parecia gostar de sua notoriedade e mesmo serviços sociais tinham "medo" das visitas.

Os pais viviam de benefícios sociais do governo (um tipo de "bolsa-família") que era gasto quase que completamente em maconha e álcool. Gradualmente eles passaram a perder o controle sobre os meninos. A mãe havia dito a uma vizinha que costumava colocar maconha no chá deles, "para fazê-los dormir para que eu tenha sossego". Como o dinheiro para alimentá-los e vestí-los era gasto em drogas, os meninos eram incentivados a procurar comida e roupas no lixão dos supermercados.
Quando não perambulavam pelas ruas, os meninos passavam o tempo assistindo filmes ultraviolentos e pornográficos (os preferidos eram SAW e "Brinquedo Assassino"), no que a corte definiu ontem como "um estilo familiar tóxico" e uma "rotina de agressão, violência e caos".

Arrepio-me de imaginar a cena familiar: pai, mãe e os dois filhos mais novos assistindo filmes violentos enquanto fumavam maconha, rindo-se enquanto sangue escorria em quase todas as cenas. E cedo, de fato, a ficção tornou-se realidade.

Quando questionados sobre o porquê de terem torturado as outras duas crianças, o irmão mais velho respondeu "Porque não tinha nada para fazer". O horror foi capturado pela câmera de um celular (telemóvel), no qual se pode ouvir o mais velho dizendo "que imagem ótima". Tudo se passou sem qualquer entendimento do que era certo ou errado, sem medo de qualquer culpa ou punição. Durante os procedimentos do tribunal, os meninos mostraram sentimento apenas quando sua mãe disse que era abusada fisicamente pelo marido.

Quando andavam pelas ruas de seu bairro, eles costumavam carregar vidros quebrados que utilizavam para ameaçar qualquer um que os "denunciasse". Costumavam empurrar deliberadamente outras crianças na frente dos carros em movimento para ver o impacto. Gostavam de colocar fogo no cabelo de meninas e de empurrar senhoras idosas de suas bicicletas. Eles também já haviam matado um grupo de patinhos em um parque.

Os pais se importavam muito pouco e nunca os puniram ou reprimiram. Um psiquiatra infantil que investigou o caso disse que os dois apresentam grande potencial para desenvolver o transtorno de personalidade antissocial.

Todos são vítimas de certa forma. Para os dois irmãos provavelmente já é muito tarde e o prognóstico, mesmo agora que foram retirados da família e institucionalizados, já é quase certo. As vítimas, que recuperaram-se brilhantemente da tortura e mostraram-se bastante resilientes no que tange ao sofrimento físico, tem sofrido de pesadelos, medo e evitam sair da rua. Provavelmente precisarão de auxílio psicológico e psiquiátrico (transtorno de estresse pós-traumático) pelo resto da vida. A amizade entre os dois está bastante estremecida. O pai do menino de 9 anos disse que ele sente muita culpa de ter abandonado o amigo na ravina para buscar ajuda. A família do mais velho, entretanto, acredita que ele seja um herói por ter buscado ajuda.

Critérios para o transtorno de personalidade antissocial:

Critérios Diagnósticos pelo DSM-IV-TR (Código: 301.7)


A. Um padrão pervasivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, que ocorre desde os 15 anos, como indicado por pelo menos três dos seguintes critérios:

-Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção;

-Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro;

-Irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas;

-Desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia;

-Irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter um comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras;

-Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.

C. Existem evidências de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos de idade.

D. A ocorrência do comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia ou Episódio Maníaco

Transtorno de estresse pós-traumático

A existência de um evento traumático claramente reconhecível como um atentado à integridade física, própria ou alheia, que haja sido experimentado direta ou indiretamente pela pessoa afetada e que lhe provoque temor, angústia ou horror.


A reexperimentação repetida do evento, ou seja:

Pensamentos recorrentes e intrusivos (flashback);
Pesadelos;
Comportamento como se o evento ocorresse novamente.
A insensibilidade afetiva, identificável por:
Diminuição expressiva no interesse em realizar atividades comuns ou significativas, especialmente se tem alguma relação com o evento traumático.
Sensação de alheamento em relação às outras pessoas.
Restrição afetiva. Incapacidade de amar.
Ativação psicomotora
Hiperatividade.
Distúrbios do sono.
Dificuldade para concentrar-se.
Irritabilidade.




Foto: http://www.dailymail.co.uk/news/article-1244984/I-stopped-arms-aching-Horrific-confession-11-year-old-sadist-tortured-young-boys.html

Para ler mais: Double the jail term for torture brothers, say children's charities

Marcadores: , , , , ,

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Notícias em psiquiatria

Mulheres obesas sofrem mais com distúrbios de personalidade
Estudo aponta que conflito com a própria aparência é uma das causas do problema
Por Minha Vida Publicado em 13/12/2009 Revisado em 14/12/2009

Mulheres com sobrepeso ou obesas estão mais propensas a apresentarem transtorno de personalidade antissocial, paranoia e fobia social do que as mais magras, segundo estudo da Universidade de Manitoba, no Canadá. Por outro lado, entre os homens, os quilos a mais parecem reduzir os riscos.

Avaliando 43 mil adultos nos Estados Unidos, os pesquisadores notaram que as mulheres acima do peso tinham mais chances de apresentar transtornos de personalidade. O chamado transtorno de personalidade esquiva é marcado por timidez extrema, medo de rejeição e pelo fato de evitar as interações sociais, enquanto o transtorno de personalidade antissocial é caracterizado pelo desrespeito ao direito do outro.

Os pesquisadores acreditam que a ligação entre a obesidade e esses distúrbios é uma via de mão dupla, pois mulheres com problemas de personalidade tendem a ser mais sedentárias, levando ao aumento do peso. Além disso, a estigmatização das mulheres obesas, por sua vez, pode levar a problemas de personalidade.

Para os pesquisadores, os conflitos com a própria aparência e a piadas que enfatizam e ridicularizam a obesidade aliados a auto-valorização da imagem são os principais motivos deste efeito dominó verificado nos resultados, por isso, eles alertam para a necessidade de uma reeducação social não só dos doentes, mas de toda a sociedade para que haja menos cobranças quanto a estética e estes efeitos diminuam.

Marcadores:

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Transtornos borderline e anti-social na midia - II

Continuacao da reportagem da revista Isto E, volume 1800 de 7/4/2004 que pode ser acessado aqui!




OS TRANSTORNOS NAS TELAS DOS CINEMAS





Um dos mais renomados pesquisadores do País na área da psiquiatria e da cultura, o psiquiatra e analista José Paulo Fiks falou dos seguintes filmes a ISTOÉ






CIDADE DE DEUS



• O filme Cidade de Deus avisa logo no início que era para aquele local que iam os rejeitados sociais do Rio de Janeiro. Esses rejeitados encontram o seu espaço na favela e entre a droga. O filme mostra como o personagem Zé Pequeno, com a sua psicopatia, encontra o seu espaço na hierarquia do mundo do tráfico: é a psicopatia como fator de ascensão na hierarquia da favela










INSTINTO SELVAGEM



• É um encontro de transtornos de personalidade com os personagens Catherine Tramell (Sharon Stone) e Nick Curran (Michael Douglas). Há de tudo: corrupção da polícia, justiça com as próprias mãos, sexo de risco, lesbianismo, sadomasoquismo, falta de ética nas relações profissionais. Não se sabe ao final quem é a assassina, mas essa era a intenção do diretor (Paul Verhoeven). Ainda que seja a Catherine Tramell, ela é uma personagem borderline porque fica claro que tem sentimentos e sofrimentos








OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM



• O personagem Matthew Poncelet (Sean Penn) é um psicopata. Ele fica o tempo todo se relacionando cinicamente com a freira voluntária, chamada Helen Prejean (Susan Sarandon). É cínico e não demonstra sentimento de culpa. Pouco antes de ser executado, aí sim é que Matthew entra em contato com seus sentimentos. Não é que ele tenha nesse momento deixado de ser um psicopata. É um psicopata que se humanizou








ATRAÇÃO FATAL



• A sedutora Alex Forrest (Glenn Close) é uma borderline. Ela tem sentimentos constantes de abandono, se corta e tenta suicídio. Tem arrependimentos e remorsos, ainda que seja invasiva. É importante lembrar que o diretor do filme (Adrian Lyne) fazia Alex se suicidar no final, mas nas sessões prévias, comuns nos EUA, os espectadores exigiram que ela fosse assassinada, para pagar por tudo o que tinha feito. O fato de o diretor tê-la feito suicida demonstra que a sua intenção era construir uma personagem borderline. Foi o público que exigiu a cena em que ela é morta porque tenta no final assassinar o personagem Dan Gallagher (Michael Douglas)






O SILÊNCIO DOS INOCENTES



A intenção do filme é mostrar o personagem Doutor Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) como um anti-social, mas não como um psicopata, apesar de ele ser um canibal. Tanto é verdade que ele se afeiçoa e muito à agente do FBI Clarice Starling (Jodie Foster). O grande vilão, para o público, é o psiquiatra que cuidava dele e o mantinha com focinheira

Marcadores: , , ,