A volta da psicocirugia

Este post não é para os fracos de coração:
A psicocirurgia (que na verdade nunca foi extinta) ensaia uma volta tímida em novos artigos. Cingulotomia e outros procedimentos fazem parte dos livros psiquiátricos, mas ver mesmo um procedimento destes no Brasil é raríssimo.
Um estudo recente mostrou resultados encorajadores no que tange a Deep brain stimulation (DBS) no tratamento de transtorno obsessivo compulsivo, transtornos depressivos e síndrome de Tourette refratários a tratamento. Em seu artigo de revisão na Deutsches Arzteblatt International (texto completo aqui) os autores avaliaram estudos terapêuticos de 1980 a 2009. Os achados mostram melhora do quadro nos transtornos referidos em 35 a 70% dos pacientes, com poucos efeitos colaterais, muitas vezes reversíveis ao se modular os parâmetros da estimulação.
A DBS é um tratamento cirúrgico que envolve a implantação de um pacemaker cerebral (marcapasso) que envia impulsos elétricos a partes específicas do cérebro. O procedimento já é conhecido e utilizado em pacientes com dor crônica, doença de Parkinson, tremores e distonia. Apesar disso, seu mecanismo de ação ainda é desconhecido.
O marcapasso para DBS é colocado no cérebro de acordo com o tipo de sintoma a ser tratado, sob anestesia local (em geral): faz-se um orifício de 14 mm no crânio e o eletrodo é inserido no local escolhido, com auxílio do paciente durante o procedimento.
Embora a DBS pareça oferecer novas perspectivas no tratamento de transtornos psiquiátricos graves e refratários, ainda são necessários mais estudos sobre sua eficácia, mecanismos de ação e efeitos a longo prazo.
Para muitos leitores favoráveis a opiniões anti-psiquiátricas, notícias sobre uma possível volta de procedimentos cirúrgicos ao arsenal da psiquiatria assusta. Infelizmente, muitos ainda tem sua visão desta arma terapêutica embasada nas lobotomias realizadas nas décadas de 40 em diante (Ice pick lobotomy" ou lobotomia com picador de gelo). Tanto que esse é o texto que a wikipedia traz sobre o assunto:
"As lobotomias gradualmente perderam sua utilidade com o desenvolvimento de drogas antipsicóticas e passaram a ser realizadas apenas raramente. A era da lobotomia é agora geralmente aceita como um episódio bárbaro da história da psiquiatria. (...) Hoje, a psicocirurgia pode ser um tratamento de último recurso para pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo e para transtornos alimentares no Chile, Estados Unidos, Suécia e México. A eficácia não é alta; um estudo sobre cingulotomia (que geralmente envolve lesões de 2-3 om no cíngulo, perto do corpo caloso evidenciou melhora em 5 de 18 pacientes. [4].
A psicocirurgia é legalmente praticada e controlada nos Estados Unidos, Finlândia, Suécia, Reino Unido, Espanha, Índia, Bélgica, Holanda e no Brasil, no estado de São Paulo (como último recurso)."
Acho que já escrevi antes, mas sou da opinão de que não se pode consertar um erro com outro. A psicocirurgia infelizmente foi utilizada como instrumento de tortura por muitos regimes militares e em muitos pacientes que não apresentavam necessidade de um procedimento tão drástico. Entretanto, banir completamente procedimentos cirúrgicos em psiquiatria impede que pacientes com quadros graves não responsivos às intervenções terapêuticas tentadas sejam adequadamente tratados. Os órgãos reguladores deveriam escrever um protocolo adequado para cirurgias experimentais na área psi. É claro que seriam muitos poucos os pacientes que realmente seriam indicados para avaliação e cirurgia, mas o procedimento pode fazer uma grande diferença na qualidade de vida dos mesmos.
Referências:
Kuhn, J; Gründler, T O J; Lenartz, D; Sturm, V; Klosterkötter, J; Huff, W (2010). Deep Brain Stimulation for Psychiatric Disorders Deutsches Ärzteblatt International, 107 (7), 105-113 : 10.3238/arztebl.2010.0105
Kuhn J, Gaebel W, Klosterkoetter J, & Woopen C (2009). Deep brain stimulation as a new therapeutic approach in therapy-resistant mental disorders: ethical aspects of investigational treatment. European archives of psychiatry and clinical neuroscience, 259 Suppl 2 PMID: 19876671
Foto: http://biomed.brown.edu/Courses/BI108/BI108_2008_Groups/group07/bb_July2004_large.jpg
Marcadores: neurociências, neuropsicofisiologia, neuropsiquiatria, psicocirurgia, saúde mental; reforma psiquiátrica e integração




